Março – “Jovens Criadores na construção de Évora uma
Cidade Educadora”
Pedro
Pinto - músico
Ana
Rita Rodrigues – atriz,
programadora cultural
Daniel
Catarino - músico
Joana
Dias – designer
Márcio
Pereira - performer
Pedro
Pinto - Boa tarde, pediamos
se fosse possível que se concentrassem um pouquinho aqui mais neste pedaço da
sala, pedimos desculpas, ou peço eu, porque eu é que cheguei atrasado, por
estarmos a começar o debate só agora, e vamos dar desde já início então ao debate.
O debate de hoje está inserido numa série de debates, vocês já devem ter lido,
está aí uma News Letter, que pode ser lida, durante, e que podem levar
convosco, está inserido numa série de debates, que vão ser feitos, todos, na
última 5ª feira de cada mês, já começou em Janeiro, vai até Dezembro; a ideia
do de hoje, além, de ter obviamente a primeira ideia subjacente que é tentarmos
perceber o que é isto de “Évora como Cidade Educadora”, inserida num grupo de
muitas cidades pelo mundo fora, quarenta e sete cá em Portugal, cidades
educadoras, concretamente este debate serve para tentarmos perceber como é que
os jovens criadores, os artistas, conseguem conceber a cidade e crescem com a
cidade e fazem a cidade crescer também, e tentar perceber o que é que é isto da
“Cidade Educadora”, como é que nós temos um papel ativo nisto, ou como é que
nos deixamos levar por aquilo que nos é oferecido ou às vezes imposto; e comigo
tenho quatro pessoas aqui na mesa, mas à partida estou com vocês todos,
qualquer pessoa pode participar, a ideia de ser jovem aqui não é uma ideia
demográfica, obviamente, jovem é qualquer pessoa, é uma questão de espírito e
de presença, por isso nem vou, e pedi para não revelarmos as idades de cada um
porque não interessa.
A Joana Dias, como Designer, depois já vai
falar um pouquinho sobre ela e depois também sobre as suas opiniões sobre o
conceito, o Daniel Catarino como músico, a Ana Rita Rodrigues e o Márcio
Pereira, o Márcio é performer, criador, a Ana Rodrigues é programadora
cultural, atriz e também criadora e outras funções à volta destas, e o Daniel
Catarino é músico, compositor e vão ajudar a tentar descascar um bocadinho e a
percebermos o que é que é este conceito que nos trás aqui para ser
debatido. Vou começar então pela
Joana...
Joana Dias – Obrigada, olá boa tarde,
eu sou a Joana Dias, sou designer, (fala-se dos estudos não é), estive a
estudar designer gráfico nas caldas da rainha, fiz um estágio em Lisboa e
entretanto decidi voltar para Évora onde fundei uma associação, que se chama “É
Neste País”, onde tenho uma loja e tenho o atelier, que é onde desenvolvo o meu
trabalho, e acho que é isso, assim rapidamente, apresentado...
Pedro
Pinto – Então, acabamos com as
apresentações e depois começamos o debate, Daniel...
Daniel
Catarino – Boa tarde,
eu sou o Daniel Catarino, sou músico, faço umas músicas escrevo umas músicas e
umas letras, e tenho várias bandas, “O Bicho-do-mato”, o "One in a Way", “O Rijo”, “Long Desert Cowboy”;
já editei coisas pela net, gratuitas, e respiro música...
Ana
Rita Rodrigues – O meu nome
é Ana Rita Rodrigues, eu gostava de começar por agradecer o convite que me foi
feito e desde já dizer que espero que não fiquem ofendidos comigo porque eu vou
ter que sair um bocadinho mais cedo por ter um espetáculo esta noite; o que é
que eu posso dizer, eu já há muitos anos que fui fazendo umas quantas
experiências quer na dança, quer no teatro, pequenos trabalhos, entretanto ao
fim de algum tempo decidi-me a ir à procura de formação e fui para o Porto e
estive lá durante alguns anos a estudar e a trabalhar, e isso obviamente
ajudou-me e abriu-me as perspetivas aos mais diversos níveis, mas sou de cá,
sou de cá de Évora, e entretanto depois de ter andado de um lado para o outro
como cigana como é habitual na maior parte dos artistas e dos atores em
particular, voltei, voltei há meia dúzia de anos, mais ou menos e resolvi
reinstalar-me aqui, tendo consciência das dificuldades que iria ter, e resolvi
também ingressar na universidade e tirar a licenciatura em teatro, porque já
tinha feito outros cursos e outras coisas, entretanto e até posso dizer que foi
lá que conheci o Márcio, e entre trabalhos, pronto que nos permitam ter um
rendimento ao final do mês e projetos que fui desenvolvendo tentei também
estudar para puder ser professora, formadora e professora, porque sentia falta
de procurar uma vertente pedagógica e foi o que fiz também, portanto
basicamente assim de forma resumida tenho trabalhado como criadora, como atriz
e tenho trabalhado como professora e como formadora, agora nos últimos anos,
portanto em 2010 criamos uma cooperativa cultural, aqui em Évora que é a Zorra
Produções Artísticas, e felizmente há pouco tempo conseguimos encontrar um
espaço que estamos a começar a dinamizar agora e a programarmos também, daí a
programadora, atividades culturais, é esse o nosso objetivo, a única coisa mais
que posso acrescentar é que, porque é algo que eu valorizo e que acho muito
importante independentemente da minha formação ser na área do teatro mais
especificamente, juntamente com os meus colegas um dos objetivos que temos é
fazer atividades muito diversificadas e termos não só espetáculos, portanto não
nos vocacionamos só no teatro mas também na música, no cinema nas artes
plásticas, e estamos também sempre disponíveis e esperamos eventualmente poder
acolher outros projetos que não são os nossos, portanto é um dos objetivos que
temos enquanto grupo enquanto cooperativa, isto para dizer que é uma das minhas
motivações pessoais e enquanto artista, vá, procurar essa versatilidade e essa
fusão de linguagens, se quiserem.
Márcio
Pereira – Pronto, então agora sou
eu, o meu nome é Márcio Pereira, antes de mais gostaria de agradecer o convite
à Dores, e pronto falar um bocadinho sobre mim, trabalho com a Coleção B já há
quatro anos, já há quatro anos que tenho vindo a colaborar com eles, neste
momento faço produção na Coleção B, e também por consequência no festival
“Escrita Na Paisagem”, licenciei-me em teatro há dois anos, mas cheguei cá e no
primeiro ano percebi logo que o meu caminho que estava assim um pouco
equivocado, e então comecei a procurar-me um pouco mais na dança, e foi então
aí, pronto que comecei a encontrar caminho na dança procurei a Companhia de Dança
Contemporânea de Évora tive por lá um ano, e pronto essencialmente é isso que
tenho feito e o que estou a fazer neste momento.
Pedro
Pinto – Após então a
apresentação, esta introdução, gostava de lançar umas questões e vê-los opinar
sobre isso, responder, e depois mais tarde estar o debate aberto, porque está
desde agora, quando quiserem podem participar, eu acho que há coisas
importantes, coisas que eu tenho vindo a falar com a Dores desde que ela me
convidou para estar aqui, e eu acho que aquilo que é importante é tentarmos
perceber como é que se associa a arte à educação, e como é que isso se faz em
espaços fechados, privados ou públicos, e como é que se faz também no espaço
publico, na rua, e acho que para se discutir como é que a construção de uma cidade
se faz tem que se perceber o que é que nós somos como indivíduos desde que
nascemos e desde que temos uma opinião e também coletivamente por isso é que
acho que é importante, e se calhar passava a palavra a quem quisesse elaborar
um bocadinho sobre isso, não sei se a Ana Rodrigues quiser, falando um
pouquinho, um pouquinho sobre aquilo que eles estão a fazer ou mais
concretamente, como é que eles fazem as coisas nos espaços deles, como é que
eles pensam que isso chega às pessoas, que público é que eles querem lá...
Ana
Rita Rodrigues –... bem,
nós enquanto espaço, cultural, vá, abrimos à muito pouco tempo, não é, estamos
a dar os pimeirissíssimos passos, no entanto (peço desculpa), o que é que eu
posso dizer, que não pretendemos
procurar um público pretendemos chegar ao máximo de pessoas possível, que sejam
elas de todo o género que queiram usufruir do nosso espaço, e utiliza-lo da
melhor forma possível, por esse motivo seguindo obviamente determinados
critérios e, pronto, e obviamente zelando, digamos assim, por alguma
coerência e esperamos alguma qualidade,
no entanto nós queremos criar, ou pretendemos criar um espaço que seja, que
seja eclético, que seja abrangente, porque sentimos também que a nossa a nossa
cidade, e eu que sou de cá se calhar sinto particularmente isso, que a nossa
cidade precisa sempre de mais, que já teve mais, já teve menos, vai tendo mais
novamente, mas que precisa de espaços também, de espaços exteriores, espaços
públicos e de espaços de encontro que possam esperamos nós, ser versáteis e
sejam adaptáveis, posso dizer que no pouco espaço que funcionamos já
organizamos e reorganizamos o espaço de variadíssimas formas para acolher
coisas completamente diferentes e isto pode parecer um pormenor completamente
idiota mas acho que é revelador da nossa vontade de que o próprio espaço seja
móvel enquanto proposta, e tínhamos este anseio, de conseguirmos encontrar um
local que fosse dinâmico e que tivesse várias salas, e que permitisse várias
coisas acontecerem e inclusivamente acontecerem ao mesmo tempo, esperamos que
isso seja possível. Pegando na ideia, se consigo lá chegar, que falavas da
questão da arte e da educação, para mim é muito difícil separar as coisas, eu
acho que é absolutamente impossível, por um lado porque a parte a questão da educação para mim
é fundamental também por um percurso profissional, e por uma opção, por outro
lado porque eu entendo que qualquer interversão artística, e qualquer
intervenção em termos de educação, estão, quer dizer as coisas são sempre associadas,
não é possível criar sem ter uma perspetiva ou uma opinião sobre as coisas e
isso é educação, quer se queira quer não, e penso que também não é possível ter
uma atitude educativa ou educadora sobre as coisas sem criatividade e sem
dinâmica por isso penso que não se separam, não é possível, e pronto.
Pedro
Pinto – Eu agora perguntava ao
Daniel que não é de Évora mas que se fixou cá há uns anos e que aparentemente
gosta de estar cá, porque ele anda um bocadinho por todo o lado com as bandas
dele, e nós já participamos também num projeto juntos e já conversamos sobre
algumas coisas, o que é que esta cidade tem de bom de menos bom e de mau, que
dificuldades é que a cidade oferece, e eu digo oferece porque podem ser
desafios, e como é que isso se ultrapassa, do ponto de vista do músico que vem
de fora.
Daniel Catarino – Bem falando mais
especificamente da música que é o que eu melhor conheço não é, as dificuldades,
as dificuldades são sempre muitas mas isso acho que são sempre muitas em
qualquer arte e acho que de certa forma um bocado por isso que as pessoas
decidem fazer arte, e muitas vezes tens aquela ideia de “isto parece
impossível, vamos tentar fazer” para que..., sei lá pelo menos isto passa-me
muitas vezes pela cabeça, tentar fazer o mais impossível possível, e depois
tentares jogar isso contra a realidade, contra aquilo que é prático, contra
aquilo que é fazível e no meio disso salta qualquer coisa que pode ser mais
especial ou não; em termos de dificuldades, nós não temos espaço, as minhas bandas
passaram, eu ensaiei, ensaiei num sótão, durante muitos anos apareceu a policia
sempre, mandou-nos calar, depois passamos a ensaiar numa garagem os vizinhos
fizeram m abaixo-assinado e tivemos de ir embora, depois ensaiamos às
escondidas num edifício da universidade, que não vou divulgar qual é que é,
durante algum tempo até que fomos mais ou menos descobertos e tivemos de ir
embora de lá, depois mais..., chegamos a ensaiar no “Kif”, num bar durante o
dia à tarde, portanto só na parte do ensaio que estamos a falar da parte
fundamental, que é aí que se faz a criação, pelo menos em termos de banda, só
nisso aí foi uma luta de anos e anos, e eu vejo aqui pessoas de outros grupos
eles compreendem e revêem-se nestas histórias certamente, cada um de nós tem
duas, três notificações da policia, não fomos multados por favor porque os
policias acabam por ser condescendentes porque querem, porque não nos querem
multar, porque percebem que somos só putos a tentar fazer a nossa arte, não é,
e depois passando essa fase, pronto com mais ou menos esforço, passas essa fase
e passas à fase do concerto, dos concertos, e depois temos as dificuldades
naturais para darmos bons concerto precisamos do mínimo material indispensável,
com alguma qualidade para conseguir fazer um bom espetáculo e para isso
precisamos de dinheiro e para isso precisávamos de dar concertos em que nos
pagassem, e isso aí é outra coisa, porque as pessoas assumem que tu vais
mostrar o teu trabalho e é esse o teu cachet é que tens a oportunidade de mostrar
a tua arte, ou seja, acho que houve uma inversão ao longo dos tempos em que
passou de o público tem o privilégio de ver o artista para o artista tem o
privilégio de mostrar o seu trabalho ao público, acho que é o que acabou, e as
pessoas e sinto muitas vezes a atitude do, agora cada vez menos, mas ao inicio
quando as pessoas, quando não há ninguém que te respeite, porque és mais um
puto a fazer barulho, ao inicio acontecia-me muito essa, essa, não digo
discriminação, “tás a ver”, mas essa falta de apoios de todo o lado, de todo o
lado, começa desde as pessoas que organizam eventos que querem ganhar o máximo
possível à tua conta, depois chegas ao fim da noite e o gajo que está a servir
imperiais está a ganhar mais do que tu, do que tu ganhas-te, e tu... e teoricamente
as pessoas estão lá para te ver a ti, mas o gajo que está a servir imperiais
ganha mais dinheiro do que tu, o que é que eu posso dizer mais, sobre
dificuldades, isto falando em dificuldades, em termos de inspiração surge tudo
exatamente disso, a inspiração pode surgir exatamente... e comigo é o que mais
me acontece é que surge como reação a todas essas dificuldades que nós
encontramos e como forma de
ultrapassar isso, e como forma de se calhar tentar com letras ou com músicas ou
etc... passar essa mensagem para as pessoas, passar essa mensagem de que nem
todos os putos são só putos que estão na garagem a fumar charros e a fazer
barulho, e que há pessoas que estão realmente ligadas seja no Rock, no Metal,
no Folk, seja no que for estão ligadas à música e isso é universal, isso é
independente, não interessa os géneros, não interessa... e aliás toda a gente
que está ligada à música muito mais do que quer admitir até porque pelos vistos
é rentável as pessoas não admitirem que estão ligadas à música, é fácil sacares
um CD da net enquanto por exemplo uma peça de escultura não consegues sacar da
net, eu faço isso, eu saco, sou ultra-pirata, admito aqui, sei lá há muitas
dificuldades, mas há espaços e há pessoas com vontade, e a maior dificuldade
pelo menos na minha área que eu encontrei foi descobrir as pessoas com que
posso trabalhar, seja a compor músicas seja a toca-las, seja a divulga-las seja
a apresenta-las ao vivo, seja com os programadores seja com os espaços, é muito
difícil porque tens de experimentar tudo e depois no fim de tudo, depois no fim
de mil pontapés mil situações que correram mal houve algumas que correram bem e
tu focas-te nessas, nessas pessoas, por isso é que eu não, sei lá, por isso é
que eu não me manifesto contra, politicamente por exemplo, que acho que isso
não é uma questão politica, não é uma questão... tem tudo a ver com as pessoas
ponto final, com as pessoas e com a força de vontade que as pessoas tem ou não
de fazer algo, acho que é basicamente isso,
e isso serve de inspiração,
principalmente a inércia, a inércia que ... nós temos espaços nós temos tudo
aqui em Évora, e principalmente felizmente consigo ter alguma visão de fora,
sei lá porque eu venho de uma aldeia, em que nada disto acontece, uma vila, que
eu uma vez disse na televisão que era uma aldeia e ia sendo espancado, e acho
que é isso, acho que é isso, acho que a cidade tem tudo e nem sempre se sabe
valorizar, nem sempre se sabe focar sobretudo naquilo que realmente vale a pena
apostar mais ou não, ou aquilo que chama as pessoas, aquilo que interessa
realmente ao público, porque teres um espaço não é suficiente, tens de ter
público para se encontrar nesse espaço, porque senão não é um encontro.
Pedro
Pinto – Há uma crítica que se
faz muitas vezes, aqui Évora, não sei em absoluto se será mas já ouvi muitas
vezes, e já li que Évora é das cidades provavelmente da Europa que tem mais
Associações Culturais face à dimensão, a pergunta que eu faço para quem quiser
responder, e agora começo a abrir o leque para toda a gente, é como é que se
luta contra isso, não sei se é uma atitude bairrista, elitista, não sei não vou
opinar sobre isso, mas eu pergunto a quem quiser responder, como é que se luta
contra isso, como é que se trás a cultura para as pessoas sabendo que um Tony
Carreira, ou um outro qualquer “Pimba”, sabendo que, como o Daniel disse, a
música é o que há de mais fácil para servir de entretenimento e pra se tirar da
internet, e para se ter bandas e projetos musicais a tocarem de borla, ou por
muito pouco em qualquer espaço, hoje em dia qualquer espaço faz música ao vivo
cá em Évora, quando ainda há três, quatro anos atrás não havia um único sitio
que fazia música ao vivo, e como em tudo cá em Évora ou como em muitas coisas
cá em Évora, primeiro não há, aparece um depois todos querem e depois morre num
instante, e é isso que eu pergunto, é como é que se muda, como é que as pessoas
que tem vontade sendo empreendedoras ou sendo puramente criativas, e uma coisa
não anula a outra, se calhar até se compensam, como é que se consegue chegar às
pessoas, porque há associações, a Ana Rita e a Joana podem falar sobre isso,
mas como é que se chega a outras pessoas, porque as associações tem sempre o
seu público, e isto é uma critica que toda a gente faz e como é que se desmistifica
isto?
Margarida
Morgado – Ora boa tarde, olha
Pedro consegue-se tudo isso sendo terrivelmente persistente, direi até “?”,
admitindo “abe inicio”, só uma coisa,
que ou somos iguais a nós mesmos e continuamos o nosso percurso solitário,
olhado, porque não reconhecido pelas altas instâncias, e um dia sem sabermos
bem como nem porquê alguém descobriu que fazíamos coisas de que alguns
gostavam, assim foi comigo, eu falo daquilo que vivi. Quem vai à espera do
sucesso fácil, e economicista, ai não o encontrará, não, não o encontrará, mas
encontrá-lo-á quem através daquilo que faz tenta responder à sua necessidade de
mais ser, e depois um dia descobre que as pessoas até gostam daquilo que faz. A
questão do espaço é uma questão estruturante, das pessoas e das cidades, nas
cidades sempre houve poderes dominantes, sempre houve dominados e entre os
dominados encontram-se os “dominantezinhos”, que querem que os espaços
continuem consoante a sua “tacanhez”, consoante o seu bem-estar, ali
inamovíveis para que nada os faça progredir, evoluir, terem utilidade para
alguém, serem habitados por alguém, eu sei que em relação aos músicos é
terrivelmente frustrante verem tanto espaço vazio, precisarem de ensaiar,
precisarem de compor, precisarem de se juntar para em conjunto descobrirem
possivelmente novos ritmos, novas melodias, e todos lo sonegarem, porque a
posse do espaço tem em si outra coisa escondida, é poder. Évora teve em tempos
um projeto exemplar, desse ponto de vista, que era a “Fábrica Da Música”,
alguns deste grupo de pessoas que aqui se encontram lembrar-se-ão do que foi de
luta e de entusiamo para conseguir realiza-lo, claro, à boa maneira portuguesa,
poderes que se instalam e se substituem, o primeiro sinal de poder que dão é
sempre o menosprezo do que os outros fizeram de bom, porque só o que nós
pensamos e concebemos é que interessa, o que os outros eventualmente pensaram
de bom, de útil, de criador não, não conta, é lixo, é para esquecer; há ainda
outra coisa que eu gostava de sublinhar aqui e já me calo, esta história dos
criativos encerra vários equívocos, em primeiro lugar, todo o ser humano é por
natureza criativo é ele quem se cria a si mesmo através das diversas
oportunidades que a sociedade lhe dá ou lhe disponibiliza, e depois as pessoas
escolhem qual dessas oportunidades corresponde ao seu desejo de mais ser,
atualmente confunde-se criatividade com capacidade de expressão, uns
exprimem-se pela música, outros pela fotografia, outros pela escrita, sei cá,
que sei eu, mas todos somos criativos, a pessoa que em casa faz tricots e bolos
é criativa, é tão criativa como os outros que fazem música só que a sociedade
não reconhece essa criatividade, porque a criatividade com que nos acenam tem
vários equívocos, é empreendedora, é rentável economicamente, mas é tudo menos
isso, a criatividade é o percurso que nós fazemos para sermos nós mais mesmos,
e muitas vezes somo-lo através da música, somo-lo através da literatura,
somo-lo através da nossa capacidade de nos darmos aos outros, de convivermos e
de sermos solidários, a solidariedade não se mede apenas pelas instituições que
aparecem como tais; há outra coisa ainda que eu gostava de abordar rapidamente
que é esta história do cachet, falam em criatividade os criativos e banalizam a
capacidade que alguns têm de se exprimir, através do que só chamar-se arte
porque banalizando-a tornam-na mais barata, quando eu estudei economia dizia-se
que a obra de arte não tinha preço, era impossível fixar-lhe um preço, e
atualmente é exatamente o contrário, se tiveres atras de ti uma qualquer
instituição de peso que te reconheça como criativo, aí ganharás algum dinheiro
ou quem sabe muito para puderes dar aso à tua procura de ti mesmo, senão, à és
um pobre coitado a quem se dão uns biscates, a quem se consente que vão fazendo
as suas coisitas, e quando vão reclamar o preço que lhes é devido atrevem-se a
dizer “como assim, não te sentes suficientemente pago por teres sido incluindo
em determinado programa?”, e por ora tenho dito.
Pedro
Pinto – Eu gostava de pegar por
aqui, eu acho que numa sociedade em que tudo é individualista ou tudo incentiva
e incita ao individualismo, e eu estava a lembrar-me agora de uma serie de
coisas enquanto estava a ouvir... os concursos de televisão dantes eram por
equipa hoje em dia são por indivíduos, alguns até humilham os outros que
perdem, a escola incita as pessoas a serem individualistas, pelas notas, pelo
tipo de avaliação seja por aquilo que for, e depois faz-me confusão ver desde
concursos a programas de televisão, series, filmes, em que todos os adolescentes
cantam, todos dançam, todos aparecem a fazer coisas e parece que a arte é uma
coisa que chega a toda a gente, a arte ou o entretenimento, e era isto que eu
gostava de deixar agora em aberto para alguém também responder, como é que se,
como é que se faz esta diferença entre aquilo que é suposto servir de
ensinamento artístico na escola por exemplo, ou aquilo que deve ser a arte em
si, como é que um jovem, independentemente da idade, volto a referir, processa,
como é que se processa o sentimento de criação, desde a observação, a análise
até, até aquilo que se cria e aquilo que aparece, Daniel queres falar sobre
...força...
Joana
Dias –... não, eu vou
aproveitar para dar aqui o exemplo da minha associação, porque acho que se
integra aqui bem nesta situação, nós quando iniciamos a nossa associação
cultural, foi porque o meu pai é marionetista e era um bocadinho criar um
espaço onde pudéssemos fazer espetáculos, e convidar o pessoal, o nosso pessoal
para fazer coisas. Quando iniciamos a atividade da associação começo por dizer
que quem foi fazer a inauguração da nossa associação foi a Associação do
Imaginário, que é o que nós também gostamos aqui de dizer, a força das outras
associações, porque acho importante é que as associações também consigam trabalhar
em conjunto, e sempre que posso trabalho com outras associações, fiz trabalhos
com o Imaginário, fiz com a Associarte, fiz agora para o Joaquim António de
Aguiar, e nós tentamos sempre que haja esta ligação, acho que é importante;
quando começamos a desenvolver a nossa atividade criamos um momento, que é
todos os sábados de manhã temos “Com Quantos Pontos se Conta um Conto”, isto
começou com o meu pai que tinha escrito as histórias dos bonecos dele, e ele ia
contavam a história e ele fazia o boneco, começaram a aparecer pessoas, que são
apaixonados pelas histórias, confesso que às vezes quase não temos crianças
temos muitos adultos a assistir, é uma atividade que não é paga, vai lá quem
quiser, porque aquilo é muito pelas pessoas que se interessam em contar contos,
que se interessam em ouvir, e criar esta partilha, nós neste momento temos...
já existimos há dois anos, e temos crianças que começaram para lá no colo dos
pais, agora tem três anos, por exemplo este sábado vou ter uma menina de três anos que vai lá contar a história,
porque vai sempre ao sábado e pronto e decidiu que agora era a vez dela ir lá
contar e acho que isto é muito importante, que haja esta, esta ligação com as
pessoas da cidade que tem estes pequenos prazeres e que gostam de partilhar
este, este interesse, e isto é o que nós tentamos ali promover acima de tudo,
temos mais atividades como é claro... não sei se...
Márcio
Pereira -... eu gostava de ... à
bocadinho o Daniel referiu uma coisa que eu acho muito interessante e que para
mim faz muito sentido nesta cidade, esta proximidade das pessoas, dos artistas,
e tu também agora o referiste, pronto é uma cidade relativamente pequena, não
é, e para mim é uma coisa muito
positiva, esta possibilidade de chegares ao teu colega e o convidares para
participar num projeto teu, há uma grande abertura neste, neste sentido, pelo
menos eu, eu, eu sinto muito isso, e pronto era só isto. Não para referir
uma... o que eu vejo de bom nesta cidade, também não sou de cá, não sou de
Évora estou cá há sete anos, mas já me sinto de cá embora esteja de partida, e
também senti necessidade de responder-te... sim de responder-te.
Daniel
Catarino – Em relação
à arte, estavas a falar da arte e da educação, e a ligação da arte com a
educação, pelo menos eu como, como, como mau aluno, sempre... nunca fui muito
mau aluno mas sempre fui muito “baldas”
pelo menos, e estudei literatura, e estudei não, frequentei exames de
literatura, vamos ser específicos, e sempre senti desde tenra idade, sempre
quis ser escritor, antes de ser músico, sou músico por acaso, senti desde
sempre que não tinha qualquer espaço para ser eu, a nível da escola, claro, mas
acho que isto acontece mais ou menos com toda a gente, não é, por isso é que
nós vamos rabiscar os cadernos com outras coisas, vamos fazer o pequeno
desenho... quem aprende a desenhar faz desenhos, quem escreve faz letras, quem
toca... etc. ; e em relação o que é que, como é que se pode ensinar a arte e
falar-se da separação dos “Tonys carreiras”
e não sei o quê, eu não vejo, eu
não, não considero nenhuma música superior ou inferior ao Tony Carreira, nem artistas superiores ou inferiores, acho
que o Tony Carreira faz tanta falta como um “pimba”, e eu percebo o teu ponto
de vista sei o que queres dizer com isso, a massificação, sim, mas a
massificação também não tem que ser negativa,
porque tu constróis uma obra de arte para ti, pelo menos eu, primeiro
faço com o meu filtro, com aquilo que eu quero exprimir, com aquilo que eu sou
com aquilo que eu quero dizer ou tocar e se as pessoas se identificam com isso
ótimo, ótimo, quer dizer tu escreves-te... porque se aquilo te vem da alma não
tens de ter problemas nenhuns com as pessoas
se identificarem com aquilo,
sejam duas ou dois milhões. Em relação à arte na educação, o que eu queria
dizer era que, falta muita abrangência na educação sobre o que é que é a arte,
ou seja nós acabamos por estudar as obras de “A,B,C”, os desenhos de “X,Y,Z”, e
há todo um universo que nós nem sequer ouvimos falar e se não houvesse internet
provavelmente hoje nem tinha ouvido falar de metade dos estilos de música, dos
filmes, de..., etc. , porque nunca, nunca tive acesso a isso durante o meu
período de principal formação não é, que é a infância e a adolescência, e a
entrada na idade adulta é que me fez perceber o que é que eu queria, o que é
que eu queria procurar, e daí a educação, a educação no sentido da escola
deixou de fazer qualquer sentido para mim durante muitos anos, deixou de fazer
sentido porque nada daquilo que eu me interessava e nada daquilo que eu queria
fazer estava em qualquer agrupamento ou
em qualquer curso, porque também não quero ser músico de câmara, também não
quero ser ... estás a perceber?... quero ser um “gajo” que faz músicas, escreve
letras, que faz músicas, que pensa em arranjos, e que precisava sobretudo de
conhecer tudo, da arte, ter tudo disponível para eu depois como individuo ir
escolher, sei lá, acho que é o que falta na educação é abrangência, abrangência
em tudo, mostrar às pessoas para que as pessoas decidam, não é o Saramago é bom
e o “não sei o quê” é mau, ou o Tony Carreira é mau e o Fausto é que é bom, não
é existe o Tony Carreira, existe o Fausto, existe o Emanuel, existe o Bruce
Sprinston, existe o etc., e as pessoas saberem que eles existem e terem
hipótese de julgarem por elas se gostam ou não gostam, terem acesso a isso,
acho que é o falta mais na educação em relação à arte, é isso.
Margarida
Morgado –... formatar os
indivíduos de uma sociedade determinada para a moda económica que pratica, e
que seria de termos um pais com pessoas que sabem o que querem e aquilo de que
gostam, precisamos sim de um país de conformados, “olha pá isto está muito mau,
mas aquele ainda está pior que eu, a gente não tem senão que olha dar muitas
graças a deus, do pequeno emprego que tem e de se conformar com isso”, isto é
uma forma de submissão inadmissível, isto é uma forma de abdicarmos de nós e da
nossa procura e de sabermos que o mundo, o vasto mundo tem muitas
possibilidades que não são exploradas porque não convém aos poderes económicos
vigentes, desculpem...
Dores
Correia -... continua por
aqui..., Helena Figueiredo...
Helena
Figueiredo – Posso fazer
uma pergunta ao Daniel Catarino? Estávamos a falar de escola, de arte, e eu
creio que apanhei de alguma forma o que queria dizer, mas vou-lhe fazer uma
pergunta, a escola, portanto a educação formal tem ou não também que nos dar
algumas ferramentas, para nós podermos depois discernir, porque eu há coisas
que não posso concordar consigo, em absoluto, não é tudo igual, não é, cada um
de nós tem o seu sentido estético, e eu tenho alguma dificuldade em dizer que é
tão bom uma coisa como a outra, mas enfim, são gostos não é, são os nossos
sentidos estéticos, mas tem ou não a escola que nos dar essa..., as ferramentas
básicas, não é só pôr-nos à disposição toda a informação, porque hoje até temos
se calhar informação a mais, não a sabemos digerir, não a sabemos escolher, não
a sabemos..., como é que, como é que usamos filtros, não é, quer dizer, se
calhar não é assim tanto como queria dizer penso eu...
Daniel
Catarino –... a questão dos
filtros é muito interessante e a escola
de facto tem de fornecer , tem de fornecer-nos com as capacidades intelectuais
para nós chegarmos a uma certa altura depois de passarmos os primeiros vinte
anos da nossa vida a sermos filtrados pelos outros e a sermos, tentarmos ser
aquilo que nos vão ensinando a ser, e depois tomando nós consciência do mundo
que temos à frente como seres adultos,
já o sabemos utilizar, já criamos as nossas próprias ferramentas os
nossos próprios filtros que são baseados
naquilo que nos foi dado seja pela educação, pelos nossos pais, etc.
tudo isso; se são importantes? Claro que são, claro que são importantes mas não
sei se … e de facto é preciso direção quando temos demasiada informação, é
preciso saber direciona-la, a questão é que vai ser sempre impossível para a
educação ou para qualquer pessoa saber direcionar alguém para o lado correto,
porque qual é o lado correto não é? Qual é o meu lado correto? O que é que
tinha resultado comigo para eu ser um melhor aluno, ou para ser… o que é que
resultaria com outras pessoas quais queres, porque às tantas pode… esse filtro,
esse filtro é uma complicação, e acho que é isso que os pedagogos e os
estudantes andam a tentar descobrir há séculos, há milénios, e acho que é
preciso direção, mas acho que é preciso ter muito cuidado com a direção que se
ensina às pessoas, e acho que é preciso ter pelo menos o cuidado de mostrar que
qualquer direção não é única, acho que é o melhor que posso responder, não sei…
acho que é a abrangência que eu estava a falar, acho que funciona em todos os
aspetos incluindo no filtro, no filtro da informação, no filtro daquilo que são
contextos educativos também, e agora como é que isso se faz? Isso aí é uma
pergunta que já não é para mim.
(…)
Daniel
Catarino – Deixas-me só fazer uma
achega? Eu no outro dia vi no Facebook uma coisa engraçada, que vinha dum site
qualquer, não interessa, e era uma imagem que dizia, com desenhos obviamente e
com pouco texto, “ a escola ensina, os pais educam”, e eu agora com base naquilo
que se estava a falar, lembrei-me que eu acho que os filtros, os filtros que eu
ganhei, obviamente além da educação que me foi dada em casa vieram muito da
escola mas não era a escola como… não era pelo ensino, mas sim pelos
professores que tive, e aquilo onde eu queria chegar à bocado, e agora dou mais
esta achega, é os professores estão para as crianças na escola como as
associações culturais devem estar para os cidadãos nesta cidade, por isso como
é que se faz, como é que se chega às pessoas?
Ana
Rita Rodrigues – Eu gostava
de começar por dizer uma coisa, … (queres falar? Não, pronto…), eu acho que é
muito justo as três intervenções que foram… que pronto, que tiveram lugar agora
e é engraçado ao mesmo tempo porque estamos a focar dois, na minha opinião,
dois pontos fundamentais que tem de coexistir necessariamente, lá está,
portanto eu sou absolutamente da opinião que a escola tem pouca ou nenhuma
arte, eu ainda tive, ainda que pouco na altura, pouco aprofundado e explorado,
mas ainda tive a sorte de ter na altura dos agrupamentos e das muitas reformas,
Oficina de Artes, que experimentávamos algumas coisas diferentes, mas na minha
singela opinião a escola deveria articular muito e muitas artes, porque existe
realmente uma formatação, uma formalização daquilo que é a arte e daquilo que é
a arte institucionalizada, aquilo que são os criadores ou os artistas
conhecidos sejam eles na literatura, sejam até na música pontualmente mas mais
em relação à literatura e às artes plásticas, até aí acabam por ser dois os
focos principais que são trabalhados, eu acho que é fundamental, cada vez mais
urgente, porque está cada vez pior, não é?, há alturas em que parece que a
coisa eventualmente poderia melhorar um bocadinho e depois há um retrocesso
enorme que se faz, portanto a existência de arte na escola é praticamente
inexistente e vai piorar ainda mais, como é que na minha opinião isso se
poderia eventualmente aplicar, é precisamente os miúdos poderem ter, os miúdos
e graúdos, ter a possibilidade de conhecer e explorar diversas artes e diversas
possibilidades, música sim senhor artes plásticas sim senhor, artes manuais sim
senhor, artes tradicionais sim senhor, teatro, dança e haver a possibilidade de
irem surgindo ao longo do percurso estas artes, sejam elas também a história de
arte, pronto, mas que existam um leque muito maior, agora é fundamental a
estrutura, na minha opinião não há hipótese, ou seja, se me derem se me
encherem com muita informação e eu puder fazer explorar livremente cinquenta
mil coisas em termos artísticos enquanto aluna, extraordinário, mas eu vou
sentir sempre falta de alguma estrutura, vou sentir que me entreguem algumas
ferramentas para que eu as saiba manusear, vou sentir, vou chegar a um ponto
que vou sentir necessidade de organizar essa informação, e no fundo é aquilo
que depois nós fazemos ou tentamos fazer, que é vamos assimilando nós enquanto,
vá profissionais das artes se quiserem, vamos tentando assimilar ao longo da
vida, seja de forma mais formal ou mais, sei lá, livre, exato, ou mais
experimental, seja como for, exatamente, vais tentando assimilar um sem número
de informações e de formatos e depois vais chegar a um ponto em que tu tens que
organizar essa informação, tens que criar uma estrutura, portanto isto são coisas que em qualquer arte
existe, seja no ritmo seja na melodia seja na estrutura da música seja na
estrutura da coreografia seja na estrutura do espetáculo, seja da do guião da
escrita o artista tem que entrar nesse campo, portanto é uma coisa humana
quanto a mim, temos sempre que explorar as duas vertentes, é a liberdade
absoluta e é a organização dessa liberdade que vai criar a obra ou o produto artístico e a
pessoa humana, acho eu.
(era mais o quê?), desculpem perdi-me… não é
que … ah! Eu só queria, peço desculpa, só queria dizer outra coisa, pois
entretanto pus aqui e foi-se-me, que tem a ver com as organizações e tem a ver
com os meios ou as instituições, as estruturas no fundo que tem poder de
decisão, falavas em espaços à bocado e como tu, como nós, como toda gente, a
questão do espaço é sempre um problema gravíssimo, porque temos que pedir
emprestado, porque se calhar nem emprestado é possível, porque temos que
trabalhar na casa do amigo ou pronto andamos nisto, e também os atores ou os
performers, porque eu também trabalho em performer, sentem essa dificuldade que
é muito complicada, primeiro é o espaço para trabalhar e depois é o espaço para
apresentar, seja o mesmo ou não, e eu pessoalmente acho que Évora tem todas,
como tu dizias, todas e todas as condições para ter focos culturais de criação,
em que as pessoas possam ir para lá criar, sejam jovens ou menos jovens, porque
parte-se do principio de que os jovens tem mais dificuldade de arranjar um
espaço, teoricamente, porque os menos jovens supostamente já chegaram a um
patamar, ou tem um espaço onde podem criar, que não é bem assim mas pronto, é
pá mas porquê com tanto espaço fechado, com tanta casa devoluta, com tanta
coisa que está por aí a apodrecer “caneco”, desculpem a expressão, porquê não
revitalizar, porque as próprias pessoas fazem isso, quer dizer há projetos de
reabilitação urbana, de jovens e menos jovens, de arquitetura, temos um curso
de arquitetura, quer dizer existem tantas possibilidades, não é preciso ser-se
excessivamente criativo acho eu para pensar e tentar aplicar estas coisas; eu
acho que tem razão também a Margarida Morgado quando falava da questão da
orientação que as coisas levam, e aquilo que é mais suposto acontecer, claro
que o excesso de criatividade e o excesso de movimentação dispersa e pode criar
distúrbios, nós sabemos isso, mas também sabemos que as cidades crescem é por
causa disso, se existirem estruturas artísticas, culturais e educativas porque
o público vai lá, não são só os artistas que vão lá, e eu começo a ter um exemplo
ali na casa da Zorra, só estamos a funcionar há um mês e fico muito contente
por ver pessoas que não são artistas a ir lá, é maravilhoso, eu não trabalho
para os artistas eu tento trabalhar para toda a gente e temos todas as
condições para esta cidade ser uma cidade extraordinária em termos culturais,
patrimoniais, a nível europeu a nível mundial a nível universal, o que vocês
quiserem, e aflige-me os dias da minha vida que não se movimente mais nesse
sentido. É preciso pintar paredes, eu não tenho feito outra coisa, é verdade!
Tapar buracos, também… por acaso conseguimos arranjar algum material que nos
foi apoiado, fantástico! Foi preciso “andar a bater perna”? Pois foi, mas se
calhar até há empresas que teriam todo o prazer e todo o gosto em fornecer
algum material e estar associado a esse tipo de movimentação não é tão
dramático assim, eu não estou a dizer isto para os artistas, eu estou a dizer
isto para todos nós, porque às vezes é um bocadinho aflitivo… e eu calo-me já,
peço desculpa, pronto só para terminar, isto para dizer o quê, que o espaço
público e o espaço seja interior ou exterior permite estas coisas, ou deveria
permitir estas coisas, e o público ou os públicos que vão a estes sítios e que
podem usufruir e oferecer coisas a estes sítios estão eles próprios a partilhar
da construção e a participar na construção da Cidade Educadora, e quer dizer,
se o espaço tiver ele próprio concebido de forma a ser apelativo e a convidar
as pessoas a utiliza-lo as pessoas usam-no, se for um espaço com obstáculos, de
passagem que não tem um sitio onde me sentar, que não tem, que não tem uma
dinâmica focada nisto, as pessoas não utilizam passam ao lado, vão para outro
sitio, pá e eu acho que isto são coisas, desculpem lá, que fazem parte da dita
Cidade Educadora, ou que deveriam fazer, e que, e que, e que não são, acho eu,
tão complexas assim, e que se todas as associações, e todas as estruturas com
voto na matéria, capacidade, possibilidade de decisão ou não, se juntassem, não
é, e se estas coisas fossem estruturadas lá está se calhar a criatividade era
muito mais bem aproveitada.
Dores
Correia – Relembro só que
estamos num debate onde é suposto que haja participação muito diversificada e
havia aqui uma pessoa inscrita Margarida, pode ser? Joaquim Carrapato; é bom
que vamos apresentando as pessoas que falam.
Joaquim
Carrapato – Muito obrigado, é a
primeira vez que participo neste fórum e sinto-me satisfeito por estar aqui a
assistir e com tanta juventude, eu queria na sequência desta ultima intervenção
eu tinha aqui um texto que é de uma professora brasileira chamada Rosa Helena
Mendonça, que é supervisora pedagógica do programa “Salto para o Futuro”, vou
ler só um excerto que se enquadra um bocado naquilo que estávamos a dizer e
depois há uma sequência que se calhar podemos ir por aí, este texto é sobre
cultura urbana e educação e é dirigida aos professores e professoras, e diz
assim a determinado passo “ urbano vem do latim e significa o que é próprio da
cidade, cultura urbana seria por extensão a expressão de grupos que desenvolvem
sua arte na rua, nos bairros, em espaços públicos que são democratizados,
criando novas sensibilidades, são projetos com um potencial transformador uma
vez que gestados nas e pelas comunidades, em especial as chamadas periferias
(isto refere-se muito às favelas no Brasil mas vem por aí abaixo), na maioria
jovens esses atores sociais estão ou estiveram na escola tecendo redes entre
educação e cultura …” nas escolas, e depois eu deixava aqui assim este texto e
pegava aqui assim numa escola de referência em Évora, que é a Universidade de
Évora e tenho aqui departamentos muito interessantes, e conheço alguns, e
conheço algumas obras de arte de jovens que eu tive o privilégio de fotografar
também em designer, várias coisas que eles fazem lá, e se calhar a maioria das
pessoas de Évora, se calhar até desconhecem estas coisas, mas existem, o
departamento tem um departamento artes visuais e designer, tem uma escola de
artes portanto que inclui este departamento, tem aqui muitos colaboradores que eu
não vou estar a focar; departamento de música,( isto dentro das artes),
departamento de arquitetura, que engloba todas estas artes de que estivemos a
falar, artes visuais, designer, artes cénicas, e de música, e pronto isto é
muito grande tem aqui vários textos que eu não vou estar aqui a dissertar sobre
eles até porque não tenho conhecimentos
técnico-científicos suficientes para
debater isto com profundidade, eu só me limito a constatar estas leituras que
até faço e gosto de interpretar e enfim convivo muito com esta cidade, adoro
esta cidade e transmito muita coisa através da fotografia que é aquilo que eu
gosto de fazer e é aí que eu me sinto bem, mas também gosto de estar nestes
fóruns, nestas coisas, o que eu perguntava a esta juventude, jovens, é se
havendo escolas, que eu acho que de há trinta anos para cá há muito mais do que
havia antes do 25 de Abril, se quisermos pôr uma data nestas coisas, há escolas
onde se aprende muita coisa, para aquelas que querem aprender, mas pelo menos
estão lá, as coisas estão lá, depois há… isto a nível primário, ou secundário e
depois há uma universidade que pretende formar a outros níveis, eu não sei até
que ponto e aí é que eu gostava que vocês me esclarecessem, qual é a ligação
que a partir daqui a partir de uma universidade, qual é a dificuldade que tem
depois em integrar-se, não é, fazer coisas daquilo que aprenderam, porque não
se pode estar sempre, julgo eu, e até o jovem se deve sentir mal se na primária
precisa de um apoio na universidade precisa que alguém lhe dê as bases e a
partir daí vai indo a precisar de alguém que consiga outras coisas, a não ser o
espaço, aí os jovens não conseguem espaço efetivamente, se calhar, mas eu
conheço os Leões, vocês há aqui muitos que estudaram lá certamente na universidade,
eu conheço o espaço do Leões, há ali muito espaço desaproveitado, há lá teatro,
eu tenho lá ido assistir a algumas peças, representação até ballet e outras
coisas, música, embora esteja um bocado fora do meu âmbito mas eu vou lá, além
do interesse, que eu gosto de tudo o que é arte vou lá para tentar fotografar e
apanhar imagens que às vezes não existem, e é isso que me leva a ir lá, e vejo
os espaços e vejo aquelas coisas, e a juventude, acho eu, acho eu, que era a
altura, pá não quer dizer que não tenha sempre queixas, mas tem que começar a
fazer coisas e tem que …. E vai fazendo porque eu vejo-os aí a fazer, quer
dizer as pessoas estão a fazer as coisas, aquilo que se diz muitas vezes “a
juventude não faz, ou não tem isto ou não tem aquilo”, o que é certo é que tem
descoberto os espaços, tem arranjado os sítios tem arranjado o tempo, leva
público lá, e isso a mim até me dá uma certa alegria no fundo porque as coisas
não estão paradas, e ficava-me por aqui por enquanto, muito obrigado.
Dores
Correia – Não sei se a mesa quer
retomar, se há mais alguém que quer usar da palavra, mas a mesa agora foi
interpelada, penso eu.
(…)
Joana
Dias - … eu posso falar, eu
posso responder, eu não estudei cá em Évora, não tenho grande conhecimento em
relação ao que se passa na Universidade de Évora, posso falar que esta semana
parece que a universidade de Évora saiu, ou pelo menos o núcleo de design saiu
dos Leões e vieram ocupar alguns espaços da cidade e a música também, também na praça do
Sertório, há exposições que eles foram ocupar noutros espaços, a minha
associação é um desses exemplos, foi a primeira vez que consegui ter a ligação
com a Universidade de Évora e houve lá apresentações, daquelas ...foi…como é
que é ? do palácio D. Manuel, em que eles apresentavam os projetos em cinco
minutos, … sim mas eles fizeram isto também na terça feira à noite, e foi muito
interessante ver que afinal o pessoal gosta de fazer coisas cá fora, porque eu
nunca tinha tido assim contato com eles pelo menos com o núcleo de design e pronto,
parece que, que… e nós tivemos oportunidades de explicar que o nosso espaço
está aberto a esses projetos e exposições, pessoal de artes visuais que quiser
fazer, pronto agora é quando uma pessoa sai da universidade é realmente muito complicado tentar desenrascar-se
de alguma maneira, eu tentei enviar currículos e projetos para vários sítios e
os… é tudo não renumerado, é tudo um bocadinho complicado, e eu acabei, acabei
por voltar para Évora, porque achava que Évora era realmente uma cidade com
muito potencial e pronto sempre vivi cá,
cresci com as pessoas de cá, cresci com a cultura de cá, os projetos todos que
assisti durante a minha infância, pronto, e, pronto e aí quisemos que isto
ficasse ponto assente que nós queremos é que o pessoal faça coisas. Posso falar
do exemplo na minha universidade, onde eu andei nas Caldas da Rainha, existe
uma… existe lá o “Caldas Ladie Night”, que o pessoal ocupa a cidade, abre as
portas de casa, fazem do mais variado possível, desde música a instalações,
performance, disposições, tudo e é realmente muito engraçado, e cá em Évora
tenho pena que eles não desenvolvam algo assim, que não se mostrem à cidade,
que lá era o que se pretendia, era que toda a gente pudesse ter acesso ao
trabalho que se produz, e pronto acho que é mais ou menos assim.
Márcio
Pereira – Pegando um bocadinho no
que tu estás a dizer de facto isso acontece nos Leões, de facto eles às
quartas-feiras, acho que… não sei se todas as semanas, mas já aconteceu mais do
que uma vez, eles abrem as portas e tem lá coisas a acontecer, se calhar a
cidade é que está pouco atenta ao que acontece, há coisas a acontecer
efetivamente, eu acho, há pessoas a mexerem-se, há artistas a criar, mas há
aqui esta zona muito frágil que é como é que nós chegamos às pessoas, não é,
esta vai ser a eterna questão, e como é que as pessoas vem ao nosso, ao nosso
encontro, eu não tenho uma resposta para isso, tenho pensado muito nesta
questão, mas não tenho uma resposta para isto, mas…
Joana
Dias - … realmente só estou a
dizer isto porque nós estamos com a associação já há algum tempo e durante o
último mês tivemos conhecimento de montes de coisas da universidade que até
agora não … desconhecíamos completamente, fiquei a saber que eles abrem
realmente as portas à quarta-feira, nós fomos convidados para ir lá apresentar
o nosso projeto e sei que há esta tentativa de ligação que só agora é que soube
…
Márcio
Pereira – …e ainda, não sei, …
voltando um bocadinho atrás à questão do espaço, eu pessoalmente nunca senti
essa dificuldade, sempre tive espaço para trabalhar na universidade enquanto
estava a estudar, havia sempre um cantinho para eu trabalhar, se calhar sou um
privilegiado, mas sempre tive, tive espaço, e quando deixei de tê-lo não é,
quando acabei o curso, quer dizer fui à procura dele, não é, fui, fui atrás da
Coleção B, eles tinham um espaço eu, como é que é vocês tem aqui um espaço eu
estou disponível para trabalhar como é que é podem-me receber, e como eu também
um colega meu o fez, e a Coleção B, pronto estou a falar também da associação
com quem trabalho não é, mas isto para dizer que há espaços, há associações que
acolhem projetos, eu pessoalmente não sinto, acho que não é por aí, pela
questão do espaço, a coisa acontece pelo menos comigo.
Margarida
Morgado – Eu agora precisava de
dizer duas coisas… eu prometo que não, eu só deixo um apontamento, de dois
problemas que ainda não foram levantados, há… nós sabemos que no cruzamento do
espaço com o tempo as coisas nascem os homens se criam etc…, Évora tem do ponto
de vista de tempo uma pesada história sobre si mesma que não deve ser ignorada,
em primeiro lugar tem todo o preconceito do olhar do outro sobre si que os
tempos da Inquisição e mais tarde da Pide deixou inscrito na cidade nos seus
habitantes, e depois tem um outro problema possivelmente decorrente deste mesmo
que é o facto de as pessoas em Évora vivem como que em círculos tangenciais que
podem eventualmente tornar-se secantes se lhes convier, ou seja, se tiverem
algum negócio que seja importante de parte a parte, mas depois voltam à mesma
tangencialidade, e apercebo-me de que, pois, a cidade de Évora, é que a cidade
de Évora o que aqui está de certo modo dita o comportamento das pessoas que
nela, que para ela vem; e depois só a última coisa que eu queria dizer à Célia
que é, em Évora como em todos os países da cultura judaico-cristã vive-se muito
um preconceito, que é o do trabalho manual, “aí todos somos criativos”, mas
como criativos que somos ir esfregar um chão? Ir arranjar uma parede? Aí isso é
para os outros, e tenho dito.
Daniel
Catarino – … em relação a esse assunto, eu acho que é exatamente um bocado isso
que acontece, acho que houve….e não
fomos nós, a culpa não é nossa, há-de ser das gerações anteriores, por
enquanto, nós havemos de ter culpa com os que vierem a seguir, que é o… lá está
o tal elitismo que se associou à arte, ou seja, aquele senhor leu o texto que
falava da arte para a praça pública, para o público e a senhora falou também
nessa questão de trabalho manual, e acho que é exatamente isso que aconteceu e
é isso que vamos estar a recuperar durante muitas décadas, acho que vai… é um
processo, não sei como aconteceu, não estudei a história do desenvolvimento
social relacionado com as artes, mas penso que isso é um forte contributo para
que as pessoas a certa altura se tenham dissociado de vários, de todas as artes
de alguma forma e a televisão, portanto o aparecimento da televisão também vem
exacerbar ainda mais essa vontade do entretenimento, porque, porque a diferença
não está no entretenimento nem na arte está na forma como se calhar quem vê, vê
aquilo como entretenimento ou como arte,
e acho que os artistas tem, tiveram comportamentos durante muitos anos, e
quando digo artistas falo em geral, e se quiserem sentir-se discriminados,
sintam-se façam favor, os artistas meteram-se em pedestais de que agora, agora
há muitos anos, vão ter de…, vão saltando, vão saltando mas também não se
querem misturar com o povo, também não querem misturar-se com o povo porque de
qualquer forma são artistas, não é? E um artista ou é visto como um maluco ou
como um visionário ou como… e acho que isso, isso são coisas que pronto lá
está, acho que foi… não é obrigatoriamente culpa da minha geração mas que nós
vamos ter a obrigação de derrubar um bocado esse muro e de mostrar que os
artistas são pessoas como as outras, e chamam-lhe artistas não sei porquê,
porque são pessoas que criam, e começamos esta discussão a dizer que todas as
pessoas são criadoras, todas as pessoas criam, todas as pessoas são artistas, e
as pessoas identificam-se ou não com a arte uns dos outros ponto final, e acho
que é isso, acho que estamos a pagar pelos erros do passado como sempre. Eu não
cometo erros nunca, nunca, nunca o admitirei em público pelo menos.
Dores
Correia – Pedro não sei se
podemos então passar aqui a mais uma pessoa? …
Daniel
Catarino – Estou a
brincar, naturalmente…
Dores
Correia – …podemos…, a Jesuína é
professora de Filosofia e também ia dar um contributo, e desde já aproveito
para agradecer a todos os que quiserem dar o seu contributo.
Jesuína
– Pronto, boa tarde a toda a gente, é mesmo só um
pequeno contributo, porque já se falou em tanta coisa importante, que se fosse
para a gente desenvolver cada um dos “filões”, só um compêndio brutal, de modo
que eu vou só falar na questão da história, eu não sou… não nasci em Évora,
vivo em Évora há vinte e quatro anos, e de facto acabo por descobrir que uma
das grandes falhas que a Margarida Morgado me tem colmatado, a companhia dela,
é a questão da história, eu penso que uma cidade para educar as pessoas que
vivem nela é necessário que lhes dê conhecimentos do que é que é aquela cidade,
de facto a história tem um peso, um impacto… eu conto-vos só uma pequena
história que eu achei desconcertante, eu estava uma vez junto dos contentores
da reciclagem e a certa altura chega uma senhora do bairro de Almeirim, (eu
vivo em frente ao bairro de Almeirim), e começamos a falar, e ela contou-me uma
história incrível, de que ela tinha posto mobília fora para pôr no lixo, para
chamar aquelas pessoas, aqueles carros da câmara que vinham pôr o lixo fora e
ela estava-me a contar isso e disse-me “ olhe eu pus fora aquela mobília”, até
queixou-se que tinha posto fora, “e fiquei preocupada não fossem os meus
vizinhos queixar-se de mim”, mas ela dizia aquilo natural, e eu achei, mas como
é que é possível um vizinho queixar-se de uma pessoa só porque ela pôs os seus
móveis fora? Eu achava estranho, mas ela achou perfeitamente natural, que
estava preocupada pelo que os vizinhos iam dizer, e que podiam telefonar para a
polícia e queixar-se, bom só percebo, só mais tarde em conversas e com esta
história que a gente soube da questão persecutória do medo da inquisição, de
quando se fez há pouco tempo aquela história dos “mil nomes”, dos acusados e
dos condenados pela inquisição, é que de repente eu percebi um bocadinho do
sentido da conversa daquela senhora, como aqui há um medo impressionante, eu já
tinha percebido que havia uma descrição em Évora que até é muito sábia, mas o
problema é que às vezes essa descrição é medo, é medo brutal, é insegurança
terrível, e eu não percebia porquê. Eu nasci nos Açores, as minhas raízes
viscerais são vulcânicas, são açorianas, e nos açores quando chegaram lá…
pronto a inquisição não chegou praticamente lá, de modo que eu não conseguia
perceber aquele medo, de modo que acabo já antes que me perca, o que eu digo é
assim, uma cidade para educar tem que dar a conhecer a sua história, sem
conhecimento de história a gente não percebe onde está, nem percebe o que é que
deve fazer para ser…para ter hipóteses de viver ali bem, eu tenho que conhecer
onde é que eu estou. Um segundo apontamento muito rápido, eu peço desculpa de
estar a ser talvez demasiado … a falar demais, como se entende que uma cidade
riquíssima em que cada pátio, em que cada edifício, tem uma longa história,
porque é que não se fazem mais reconstruções históricas dos próprios espaços,
das próprias ruas, porque é que não se dá de uma forma simples a conhecer às
pessoas o que é que era aquilo no século passado e no outro século, e no outro
século, para a gente perceber o que é que está aqui a fazer, nós somos seres
históricos, dentro em pouco somos antepassados, sem esta noção do tempo a
cidade não educa bem, no meu entender, peço desculpa, obrigado.
Dores
Correia - … no ar, porque havia
mais duas inscrições, o Vicente Sá,
…
Vicente
Sá – Eu no meio desta
conversa apetecia-me apresentar à moda do Gil Vicente, “o meu nome é ninguém e
busco a consciência”, há… tocou-se aqui em várias, em várias matérias, eu vim
do Minho, para esta cidade há vinte e cinco anos, quando vim para esta cidade
vim fazer, frequentar o curso de atores do Centro Cultural de Évora, que na
altura assim se chamava, trabalhei durante algum tempo no Cendrev, passei pelo
Eborae Música, passei pelo grupo Pim, a certa altura zanguei-me com a arte,
zanguei-me com o teatro, zanguei-me com a música, zanguei-me se calhar até com
a própria cidade, que é bonita, porque permanentemente as pessoas falavam
comigo e diziam “ olha não é capaz de vir ali assim dinamizar, fazer,
apresentar, dar uma formação, …”, então e quanto é que isso rende? “Ah, pois,
não temos dinheiro…”, busco a consciência, produção de arte tem de dar de comer
ao artista, o artista, o artista, não é uma ave-do-paraíso, as aves do paraíso
é que não tinham intestinos rezava a lenda, os artistas tem. Durante a história
e o conhecimento da história os artistas foram patrocinados por mecenas,
produziram obras a metro, no período clássico, ou se nós pensarmos por exemplo
na escola de música da Sé de Évora, os compositores da escola de música da Sé
de Évora compunham a metro, era para a missa tal do dia tal, e aquilo tinha que
sair assim. Mozart, produzia para um mecenas, até que se chateou também um dia,
tantos outros tinham patronos, o período, o período da Renascença, quem é que
patrocinava os pintores, eram mecenas, Évora talvez já tenha tido no tempo,
mecenas, hoje nem mecenas privados nem apoio público, como é que alguém pode
ser artista? Artista, e volto atrás a outro ponto… vou tocar outro ponto da conversa,
aprendi uma coisa com o meu pai, uma frase que eu, que eu sistematizei, perante
um dia uma observação do meu pai, o meu pai era um homem que fez a quarta
classe no serviço militar, e um dia passou por um campo e criticou a forma como
aqueles regos daquele campo estavam lavrados, estavam tortos, e depois disse,
“esta família nunca teve jeito para isto”, e eu cheguei à conclusão e criei
esta frase, até num campo de batatas há estética, eu também sei plantar
batatas. Eu por volta de mil novecentos e setenta e cinco frequentava eu o
ciclo preparatório, assim se chamava na altura, em trabalhos manuais
ensinaram-me a fazer encadernações, a primeira encadernação que eu fiz foi uma
agenda, que nunca serviu de agenda, foi o primeiro livro onde eu escrevi poemas;
a escola, voltando ao polo da interligação entre o ensino e as artes, a escola
tem uma grande responsabilidade na manutenção do consumo das artes, a tal parte
económica em que o artista pode viver do seu trabalho também, mas é se houver
um público que tenha formação essencial para perceber os códigos das artes,
porque o código das artes são cumulativos, por mais “modernaça” que seja a arte
ela é cumulativa, é um processo cumulativo, se um professor conseguir fazer
perceber a um aluno a beleza que há num texto, num Sermão do António Vieira…
porque é que aquilo é belo, se conseguir isso, ganhou de certeza público para
teatro, público para literatura, se Gil Vicente, Camões, António Vieira, o Eça,
o Camilo, e todos os autores do século vinte e já do século vinte e um, se se
conseguir passar isso nas escolas ganha-se, eu por exemplo tenho uma lacuna
imensa, apesar de já ter feito história da arte, tenho uma lacuna imensa na
perceção na leitura das artes plásticas, nunca fui estimulado nesse capitulo,
nunca fui estimulado nesse capitulo, o mesmo já não aconteceu na música e
afins. Outra questão os espaços, e as associações, entrei no associativismo com
treze anos, mas com três anos eu já assistia aos ensaios da banda de música da
Sociedade de instrução Coruchense, em Coruche, apesar de ser do Minho a minha
vida tem-se repartido entre o Norte e o Sul, a… as associações eu já assisti ao
nascimento de associações, à cisão de associações, à fusão de associações, ao
“murimbundismo” de associações, nunca assisti à morte de uma associação, porque
raio é que as associações obsoletas não morrem? Porque há associações
obsoletas? Mas não morrem, é uma coisa que me intriga, e porque é que, uma
coisa que oiço dizer há anos, e anos, e anos, e anos, eu vivia numa aldeia no
Minho, onde havia dois grupos agora já há três, depois já havia quatro, e cada
um queria a sua casinha, e alguém que vem do estrangeiro, porque aquilo é uma
terra onde chegam muitos turistas, dizia assim “mas eu venho da Holanda e lá
numa terra desta dimensão temos um salão uma estrutura que é utilizado por
todos os grupos, e é gerido e todos os grupos conseguem gerir, não, em Évora
por causa da questão da história, cada um guarda o seu “feudo”, como se de
“osso” se trata-se, a possibilidade de colaboração entre grupos é extremamente
difícil, não é porque às vezes não haja afinidades, porque muitas vezes há
afinidades, é porque lá atrás na história recente houve uma quezília qualquer
com alguém, e eu também já as tenho, e eu que estou aqui já há vinte e cinco anos
também já as tenho; os espaços, os espa… voltando agora a outro capítulo, os
espaços onde promover essa arte, neste momento eu até aqui não o referi, este
elemento porque iria referi-lo agora, neste momento colaboro com outra
associação, a Ex quórum, houve uma coisa que nós fizemos, estamos aqui a falar
de jovens, eu ainda sou um “puto charilas”, porque ainda não fiz cinquenta
anos, mas acontece no próximo ano, nesta associação estivemos, …fez-se um
trabalho com o centro de dia de Valverde, pessoas idosas, essas pessoas são
entregues num depósito e eu neste ambiente já por duas vezes, fui lá ler alguns
poemas, alguns textos, escolhi a última vez que lá fui, escolhi fábulas de La Fontaine, tudo coisas que aquela gente identificava,
conhecia aquelas histórias todas, “o velho, o rapaz e o burro”, ou a história
“do corvo, da raposa e o queijo”, etc…, contos dos bichos do Torga, coisas que
estes idosos dominavam e eles ficaram maravilhados, eles também são público,
mas nós temos que lá ir, mas para que nós possamos ir lá quem diz a este diz a
tantos outros, precisamos porque não somos aves-do-paraíso, de qualquer
coisinha, com que encher a barriga, e não nos pomos em cima de pedestais, eu
sou um cidadão, um simples cidadão como tantos outros que circula pela rua, que
conhece todo o tipo de pessoas, desde o senhor doutor até ao Quito cigano,
conheço todos, uns pararei a conversar outros olá, olá e vamos lá ver se não me
chateias muito, isto é verdade, mas não é por ser artista, não me ponho em
pedestais e penso que a maior parte dos artistas não põem, só querem, só
queremos poder fazer aquilo que um dia sonhamos, que um dia projetamos e eu
durante oito anos não fiz, e digo-vos eu a cada dia morria por dentro, hoje
estou novamente a tentar fazer, estou novamente a tentar fazer, assim haja
condições no meio desta crise, que já não percebo que crise é, mas em que há
dinheiro para uns e não há dinheiro para outros, e o dinheiro para os uns
também não é dinheiro de retorno.
Dores Correia – Muito obrigada Vicente Sá, e agora Carmem Almeida, é Socióloga e
é, e dirige, (para quem não conhece penso que a maior parte conhece), o núcleo
fotográfico.
Carmem Almeida – Então boa noite a todos, boa tarde, este hoje é para jovens, eu
não sou jovem, de qualquer forma tenho estado a ouvir as diferentes opiniões de
cada… apresentado por cada pessoa sobretudo dos mais jovens, dos mais novos, e
também dos menos novos, e já agora um comentário em relação a esta história… eu
faz-me sempre muita preocupação de falar…deste clima que há em relação à cidade
de Évora, já no outro debate em que eu estive as pessoas vieram com esta, com
este tipo de discurso, é a Inquisição é o medo, são fechadas, eu digo sempre eu
nunca vivi noutra cidade, não sei como é, não é nas outras, não sei se é assim
se é doutra maneira, mas em relação por exemplo à questão do caixote do lixo é
assim aquilo não é nada da Inquisição é uma falta de civismo da senhora que foi
pôr os móveis ao pé do caixote do lixo, porque se fosse na Holanda o vizinho
fazia mesmo queixa dela e ela pagava uma multa por ter ido abandonar os móveis
ao lado do caixote do lixo, portanto a ver se a gente não confunde estes
conceitos, isto não tem nada a ver com o medo da Inquisição nem da denuncia nem
destas coisas, neste momento foi a senhora que lá foi deixar os móveis teve uma
má atitude cívica, tinha consciência dela e por isso é que estava com medo que
a vizinha fosse chamar ou fosse dizer alguma coisa à Câmara; adiante que não é
por isto que eu me pronunciei, pegando no princípio daquilo que vocês disseram,
em relação… eu não sei se existe essa estatística se não, mas acredito que sim,
que Évora será das cidades com maior número de associações culturais, bom eu
lembro-me quando foi o plano estratégico de desenvolvimento cultural naquela
altura nós tínhamos cerca de trezentos e tal agentes socioculturais e
desportivos, penso que neste momento não existe esse numero de agentes pelo
contrário, devem ter desaparecido bastantes, por motivos vários, por motivos
vários, e, e não penso que viesse mal ao mundo nenhum pelo facto de termos
muitos agentes culturais, atenção não vamos confundir é agentes com associações
culturais e os diferentes tipos de associações culturais que existem, porque eu
recordo-me que no final da década de oitenta principio dos anos noventa meados
dos anos noventa, quando se falava em termos de associações culturais, e estou
a pensar por exemplo nas associações culturais que vocês que estão aqui
sentados a esta mesa representam, tinham características muito diferentes das
vossas, as pessoas associavam-se nos seus tempos livres para desempenharem,
entregar-se uma atividade cultural, a uma atividade criativa, a uma atividade
artística, o que vocês aqui hoje estiveram a falar foi, vocês são jovens
criadores, alguns já são menos jovens, são jovens adultos, isto não quer dizer
que sejam melhores ou piores que os outros pelo contrário, que encontraram a
forma de associação para poderem sobreviver economicamente, e aí estamos a
falar de realidades completamente diferentes, a associação aqui é, foi um meio,
foi uma solução para um problema de desemprego, e de organização da vida, a
maior parte… a joana não sei se conseguia encontrar lugar como trabalhadora de
artes gráficas, portanto, ou seja as pessoas vão….
Joana Dias - … eu trabalho na associação como designer…sou designer mas…
Carmem Almeida - … pois não… certo… oh
Joana não vamos entrar em diálogo, mas a maior parte deles depois poderás dizer
isto, que é assim, é mais fácil, mas a maior parte deles quando vão para as
associações, e eu estou a ver o caso da Rita, o caso…portanto dele eu não
conheço mas conheço amigos que tocam com ele etc…, se bem que o vosso caso é
outro, pronto, mas é outro tipo de soluções, mas eu acho que estamos aqui a
falar de, efetivamente de gente que tem uma profissão, ou seja escolheu um
caminho para ganhar o seu ganha-pão, e esse, e esse caminho é o caminho da
arte, seja ele o teatro, seja ele a música, seja ele a dança, seja ele o contar
histórias, seja ele… que isso já é um pouco diferente, a questão por exemplo de
ser historiador, que isso aí já não estamos no aspeto artístico, portanto essa
gente … vamos ter consciência de que no momento concreto e na cidade concreta
onde estamos vão ter muitas dificuldades em sobreviver, em afirmar-se, porque o
público é escasso, porque a crise no país é grande, porque a crise no mundo é
grande, e porque a cidade também tem problemas específicos, e voltamos ao
principio, estamos a viver numa cidade muito própria. Sempre ouvi dizer que uma
das formas de apoiar os criadores culturais era pela existência de equipamentos
culturais, equipamentos onde esses criadores poderiam ir desempenhar as suas
funções e onde por sua vez podiam-se criar públicos, quando estamos a falar
criar públicos, isto é, estamos a cimentar o gosto por manifestações
artísticas, estamos a construir a tal Cidade Educadora, que é disso que estamos
a falar, esses equipamentos, é evidente que tem que ser equipamentos públicos,
e aí uma divergência em relação… (é Daniel, não é, que falou à pouco?), em
relação que somos todos iguais, e que há o Toni Carreira, e que há, há o Daniel
e há o grupo alternativo não sei de onde, não são iguais são diferentes, por
uma razão muito simples,…
Daniel Catarino - …
Carmem Almeida - … pois, mas é assim, enquanto o Toni Carreira vai-se conseguir o
apoio comercial do Modelo ou de qualquer grande empresa, porque eles sabem que
lhe vão dar lucro, e portanto ele vai ter sempre a sua carreira garantida, mais
e tem ajudas nomeadamente que não deveria ter pelo sector público, os pequenos
criadores ou os criadores menos conhecidos, não vão ter esses espaços, não vão
ter esses contratos por uma razão muito simples, porque não dão lucro, portanto
como é evidente as empresas não os vão apoiar, então a quem lhes compete, quem
compete apoiar esses criadores culturais, essa gente que está no inicio, e que
pode contribuir para o desenvolvimento cultural e desenvolvimento educativo de
uma sociedade, são os poderes públicos, é aos poderes públicos que compete
efetivamente apoiar essa gente que está a surgir, é evidente que o poder
público não tem que dar emprego a toda a gente não é disso que estamos a falar,
não é, mas há que… a Cidade Educadora é a cidade que cria espaços onde possam
surgir soluções alternativas, formas de expressão alternativas, que como o
tempo, como alguém já disse, com o tempo vão-se institucionalizar, e vão passar
a ser rotinas e vão a ser aquilo mesmo que o termo diz institucionalizados, mas
há que sempre dar lugar a essa gente que é nova, essa gente que trás seiva nova
para a vida, e que se não for, repito isto, se não forem os poderes públicos,
atenção que eu estou a falar no plural, se não forem os poderes públicos a
apoiar não vai ser o privado que o vai fazer porque o privado e muito bem visa
o lucro, é evidente que ninguém vai pedir ao Belmiro de Azevedo que seja… ou
então é um mecenas, e se é mecenas como havia no Renascimento, vai só apoiar
que ele quer, toda a gente sabe o que é que faziam os Médicis, etc… apoiavam
quem eles criam, pronto, o Mozart lá se teve de zangar com o Salieri, não é,
portanto não é por acaso que estas coisas surgem, agora é evidente que alguns
de vocês e muito bem deitaram mãos, arregaçaram mãos, e estão portanto a criar
os vossos próprios projetos, isso é ótimo, mas não se iludam, quantos desses
vão sobreviver? Quantos desses vão sobreviver? E desculpem lá, o que está em
causa é com o que é que… como ele dizia do que é que vocês vão viver? Eu por
exemplo ficava muito preocupada se a minha filha, não quer dizer que não esteja
preocupada com o decurso superior ou outra atividade com o desemprego que há,
mas se a minha filha tivesse seguido a carreira do Teatro ou da Música ou da
Dança, eu ia ter a certeza que a ia governar pelo menos até aos sessenta anos,
pronto tenho dito.
Ana Rita Rodrigues - … é só dizer só duas a três palavrinhas e vou-me já embora, eu
gostava só de dizer que…, certo sim senhor…, de qualquer das formas
relativamente à organização que alguns grupos vá, criam em termos de associação
ou de cooperativa, existe uma perspetiva de criação do próprio emprego mas não
só, precisamente como disseste muitas vezes nestes casos são profissionais das
artes que tem empregos paralelos, ou dando aulas ou trabalhando aqui ou ali, ou
mesmo… normalmente é mais por aí, mas pronto, existe paralelamente a essa questão
a necessidade de nos organizarmos em coletivo, porque ainda que haja áreas
especificas nas artes que são mais individualizadas como, como, pronto
historicamente ou naturalmente, como as artes plásticas por exemplo, ou mesmo
dentro da performance e da dança encontramos mais facilmente criadores enquanto
individuo mas que invariavelmente tem a necessidade de se organizar em
coletivo, seja num projeto, numa coreografia que se faz, seja em cooperativas
artísticas, como A Árvore ou como tantas outras, que ajudam precisamente os
artistas a escoar, a vender o seu trabalho, porque é de trabalho que estamos
aqui a falar, de profissionais que estamos aqui a falar, acho eu, porque
independentemente da importância enorme que tem todas as associações recreativas
e desportivas e culturais que existem que são muitas de facto, e que não
morrem, existe uma, pronto, uma área enorme de pessoas que dedicam a sua vida
às artes como profissionais, e que o Vicente Sá disse e bem, se não fazem
morrem! É tão simples quanto isto, eu também já trabalhei em muitas outras
coisas, nomeadamente call center, e paralelamente a isso tentava criar, eu
quando trabalho com os miúdos na escola eu com eles estou necessariamente a
criar, obviamente tendo em conta o contexto e as características do grupo e
tudo mais, mas é com eles que eu crio, independentemente disso eu acho que
nunca é demais carregar na tecla que os profissionais das artes, artistas,
criadores o que lhe quiserem chamar, são isso mesmo e devem ser reconhecidos
enquanto tal e pagos enquanto tal, agora não podemos falar de favores, eu às
vezes faz-me um bocadinho já de cocegas a questão dos apoios e da necessidade
de apoiar, não! É um investimento! Estás a ver? Nós às vezes até para tentarmos
angariar dinheiro e não seio o quê, já tentamos alterar o discurso, é
publicidade, não está a fazer favor nenhum, se você investir no grupo, se você
investir no projeto, é um investimento, pelo amor de Deus, nós dinamizamos a
economia muito mais do que muita empresa que por aí anda, porque são os
alojamentos, são as refeições, é o turismo, são os profissionais que trabalham,
são o aluguer de equipamento, por favor! Eu acho que há a necessidade de falar
destas coisas com todas as letras em cima da mesa e não ter medo nem pudor de o
dizer, nós somos profissionais nas nossas áreas, temos que ser respeitados
enquanto tal e os apoios são
investimentos que tem que ser feitos nas pessoas, nos grupos e nas cidades e
nos públicos. Quando um grupo de artistas de criadores seja o que for propõe um
projeto e quer fazer um projeto existe uma vontade enorme de oferecer qualquer
coisa, com mais pedestal ou menos pedestal, isso depende já das pessoas, mas
existe isso, agora se não há um investimento das estruturas públicas e privadas
as cidades morrem, nós sabemos disto, se todos os agentes culturais pararem de
trabalhar, morre, não há dinâmica na rua, já não há, ou já há pouca, mas é
porque ainda não aconteceu, porque quando acontecer, então aí morre por
completo, nós já tivemos exemplos fantásticos, e temos, nesta cidade, eu acho
que as pessoas tem uma cede, mesmo uma fome de arte de cultura e de
experimentarem, de fazerem, de acontecerem de irem aos sítios, e sei lá e
mesmo… (peço desculpa), mesmo que não seja um artista plástico, uma pessoa
normal, digamos assim, que tem a possibilidade de experimentar e fazer um
moral, ou de pôr as mãos na massa, ou de pintarmos começarmos a fazer todos
grafitis, seja o que for, eu acho que há um potencial criativo e dinamizador
que não é aproveitado seja por medo seja por falta de investimento, e isto
aflige-me, peço desculpa porque estou assim um bocadinho coiso …, também estou
preocupada … pronto, bem, … eu peço desculpa também porque queria só finalizar,
com… pois, ah!... uma última coisa, eu percebo perfeitamente uma coisa que o
Vicente estava a dizer, também no aspeto dos idosos, porque eu própria sempre
que posso, que me deixam, trabalho em projetos de intervenção comunitária, já
trabalhei com idosos, e custa imenso o investimento, porque estamos sempre a
trabalhar, independentemente das opiniões, às vezes, das estruturas e tal… “à os artistas não fazem nenhum, são
uns desorganizados”, é mentira! Porque estamos sempre a criar, seja a escrever
seja a criar projetos, a enviar projetos, a inventar, estamos sempre a inventar
mecanismos estratégias, e este potencial não é aproveitado, há aqui muita gente
que deve ter as cabeças a fervilhar de ideias vinte e quatro horas por dia e as
ideias vão para a gaveta, porque pronto, e uma das coisas que eu tive muita
pena, foi porque estive num projeto precisamente com idosos e foi um projeto
muito bonito que acabou por durar cinco meses, quando o grupo estava a começar
a desenvolver, porque o dinheiro acabou por exemplo, e uma pessoa fica assim,
pronto mais uma e depois vamos e mais outra e depois entregamos nas
instituições e depois vamos atrás e depois vamos chatear, lá está, porque
existe a ideia de que nós andamos a chatear, que nos andam a fazer favores que
tem que nos dar uma esmolinha, um não sei quê… é pá desculpem lá mas não é nada
disto, estamos a falar de pessoas … diz, diz…
Vicente de Sá - … aqueles idosos, naqueles momentos são mais felizes…
Ana Rita Rodrigues - … ainda perguntam Vicente, eu custa-me os dias da minha vida,
porque, posso dizer isto foi em Arraiolos e eu não estou lá mas a minha colega
está lá e volta não volta encontra esses idosos e perguntam-lhe “à e tal quando
é que vamos recomeçar”, não sei quê, pois … já há dois anos, está a ver, porque
depois é muito difícil e é em relação aos jovens criadores em particular,
porque estamos sempre a embater nas mesmas portas todos, e podes ir lá e
insistir e propor, e “mas vejam lá isto é importante”, ou para os idosos ou
para as crianças, não é uma questão de pretensiosismo ou arrogância, é uma
questão de vontade de fazer coisas, acho eu, e depois “epá não dá é muito
complicado …”, é a frase que eu mais gosto, “é muito complicado”, dá muito
trabalho, porque não é só a parte financeira, acho eu, a parte financeira é um
dos aspetos, a outra “é que é muito complicado”, mesmo que… nós fazemos tudo,
nós tratamos de tudo, vocês não tem de se maçar com nada, epá mas depois tem
que se ir pedir ao “não sei quantos”, e a “chave do não sei quê”, e o
transporte… é muito complicado, … pois…
Margarida Morgado - … porque a arte é para enfeitar,…
Ana Rita Rodrigues - … para enfeitar,…
Margarida Morgado - … é para enfeitar, e como é para enfeitar prescinde-se do enfeite,
porque não dá dinheiro…
Ana Rita Rodrigues - …porque é um luxo, …
Margarida Morgado - … exatamente!
Ana Rita Rodrigues - … porque é uma coisa que está…, se nós olharmos em volta , pelo
amor de Deus,… design, quer dizer…, manual, criatividade, tudo isto nós temos à
nossa volta, é devido à criatividade das pessoas, portanto quanto mais nós
estimularmos a criatividade e a produção artística, mais coisas nós vamos ter à
nossa volta, no bom sentido, quem é que se lembrou de uma coisa destas por
exemplo, toda a técnica, tudo, tudo, tudo, é devido à criatividade, se nós
estimularmos nos miúdos a criatividade nas escolas de certeza que sejam
médicos, sejam advogados, sejam músicos, seja o que for, vão ser pessoas muito
mais criativas e muito… e vão, quer dizer, vão desenvolver seja
tecnologicamente, seja nas outras áreas a nossa vida e o nosso mundo muitíssimo
mais, …
Margarida Morgado - … eu hoje, ao chegar aqui… de vez em quando…
Ana Rita Rodrigues - … desculpa lá…
Margarida Morgado - …produz-me, dá-me um beneficio que eu enfim, só tenho que lhe
estar agradecida, … uma antiga aluna minha, chegou-se ao pé de mim e disse-me
“eu sou a Teresa”, foi minha professora de Francês e lembro-me do primeiro dia
em que nos deu aula, e lembrava-se de quê? De eu ter ido com um magnetofone e
de lhes ter posto cantigas, canções para a infância, as comptine, para elas ouvirem, e as minhas aulas eram dadas à base
disso, era muito criticada e tive grandes chatices inclusivamente por causa
disso, mas tive a grande alegria de só ter chumbado um aluno meu num exame, e
de ainda hoje elas se lembrarem de mim, e daquela aula, pronto, desculpem…
Ana Rita Rodrigues - …eu peço desculpa, eu é que peço desculpa, porque eu vou ter que
me ir embora, agora, mas pronto eu agradeço muito e peço desculpa por ter que
sair um bocadinho mais cedo, mas pronto tem mesmo que ser, obrigado.
Pedro Pinto - …pegando…
Dores Correia - … queria agradecer à Ana Rita, ela tem um problema de… um problema
pessoal que faz com que tenha de sair, já agora desejamos que se resolva
rapidamente e muito obrigada por teres estado connosco. E continuamos, Pedro, …
Pedro Pinto - …sim, pegando, pegando nisto que se estava a dizer, e há bocado
fiz a associação entre as associações, passo a redundância, e os professores, e
eu acho que toda a gente tem sempre um exemplo de um professor, na escola, no
secundário, na universidade, eu lembro-me de um professor meu que associou a
matemática que eu nunca tinha gostado, por outras razões que eu não me apetece,
não vale a pena estar a falar aqui, e um professor na universidade que me
despertou para a matemática como algo, como uma linguagem universal e como algo
artístico até, lembro-me de um professor de filosofia que tive no 12º ano e de
uma professora de psicologia que tive no 10º, e acho que toda a gente tem essas
referências, e a ligação que eu quis fazer à bocado entre as associações entre
os agentes culturais e os professores era exatamente por aqui, porque são as
pessoas…, eu acho que toda a gente pode ser criativo mas nem toda a gente pode
ser criador ponto final, não é a minha opinião, já li várias coisas sobre isto,
todas as pessoas de facto podem imaginar, podem sonhar, podem pensar mas nem
toda a gente consegue fazer, independentemente de terem ou não vontade de ir
mais além, de terem ou não vontade de ir buscar subsídios, apoios, vontades ou
outras empatias que puxem por isso, mas era aqui que eu queria chegar, e
queria… acho que gostava … gostávamos de continuar por aqui, porque pareceu
pelas várias intervenções que foram aparecendo, que é como é que as pessoas que
trazem um bocadinho mais de cor à vida na cidade podem ajudar a quebrar o
cinzentismo que esta cidade tem particularmente diferente das outras, porque
tem ruas muito fechadas, exíguas, há toda a história desde a, desde a
inquisição ao tempo do fascismo e de facto esta cidade tem características
interessantes, mas tem uma coisa que … eu não me vou alongar muito mais, tem
outra coisa que é muito interessante, e desde que eu comecei a participar, ou a
fomentar o movimento de cidadãos a cultura na rua, até ontem que estive no
ignite, que ajudei também a organizar, podem ir procurar no facebook, na
internet, foi uma coisa muito interessante que aconteceu ontem, e que vai
acontecer seguramente mais vezes, e é de facto uma coisa nova; eu não fazia a
mínima ideia da quantidade de coisas que esta cidade tem para oferecer, e eu
acho que é uma questão que toda a gente vai colocando à medida que nos vamos
apercebendo, quando estamos na rua, neste tipo de debates, que é, a cidade tem
muita gente criativa, tem algumas pessoas criadoras, e de facto há muita coisa
a acontecer, às vezes não se consegue chegar ao público, e se a cidade é
suposto ser uma Cidade Educadora, e não é só as que fazem parte desta, desta
associação de cidades, qualquer cidade, qualquer lugarejo pode e deve ser
educador, como é que as pessoas que querem fazer mais e chegar aos outros,
tocar as outras pessoas nas suas sensibilidades, como é que se faz isso, quando
ainda por cima estamos em crise e não há apoios, não há dinheiro, mais há falta
de vontade e há às vezes até má-fé em não deixarem as coisas acontecerem.
Daniel
Catarino - … posso? … Como, como, isso é
o santo graal não é? Como? Bem eu primeiro que tudo queria puxar a conversa
mais para a parte da criação e de ser jovem, portanto eu nunca recebi um
subsídio na minha vida, primeiro que tudo, eu soube que havia subsídios a dar…,
que havia músicos a ganhar subsídios passado…, quando já tinha vinte e tais
anos, portanto isso para mim é um conceito que não … que é surreal, agora,
agora já sei que existe, apoios, nunca tive apoios de ninguém a não ser da
minha mãe e do meu pai; e gravei alguns com uma placa de dez euros, uma
guitarra emprestada, e meti-os na internet e foi aí que comecei a levar aquilo
um bocadinho mais a sério portanto, só pela parte da arte, ainda sem dinheiro
envolvido, o puto que faz aquilo que quer, e é isso que eu continuo a fazer
hoje, e perguntam-me vocês como é que eu sobrevivo, com o dinheiro da minha
mãe, com o dinheiro de um ou dois concertos, dos vinte euros que vou ganhando
por cachet, e vou fazendo umas traduções, e vou fazendo todos os trabalhos que
consigo, porquê? Para poder ter a independência que sempre quis na minha arte,
ou seja, por isso é que eu não tenho qualquer frustração de não ganhar
dinheiro, de não ganhar rios de dinheiro, tenho alguma frustração acho que podia
ganhar um bocadinho mais, quem é que não acha? Portanto isso não me sobe à
cabeça, mas tenho a certeza que tudo o que me sair, no meu caso da música e das
palavras, sou eu que ali estou e a minha arte vai ficar registada seja para a
minha mãe e para os meus filhos ou para mais gente como aquilo que eu fui e que
eu sou, e isto é uma escolha, há pessoas que são profissionais, e a Ana Rita
falou da questão da profissionalidade, eu não sei o que é que é profissional,
acho que tu para seres artista só és profissional a partir do momento em que
percebes que tens possibilidades para viver disso, porque antes disso tu não és
um profissional, estás a tentar ser profissional, eu não me posso considerar
ser profissional da música porque eu não pago as refeições com a música, eu não
pago a renda com a música, portanto eu não sou profissional, eu estou a tentar
ser profissional, e se não tiver dinheiro para pagar essas coisas … se calhar
posso-o fazer profissionalmente a nível de empenho, de dedicação aquilo que faço,
mas não sou um profissional, sei lá, ou sou um profissional a quem não lhe
pagam, sou um profissional mal pago, mas tudo, tudo só para salientar uma
coisa, as mudanças culturais ou a opinião das pessoas, no meu ver, só muda, só
muda quando as pessoas tem a certeza absoluta de que aquilo que aquelas pessoas
estão a fazer tem alguma relevância para os outros, não é, e tendo alguma
relevância … isto estou a falar de massas, de massas, pessoas em massa, não é,
então o que nós podemos fazer é, tentar chegar ao máximo de pessoas possíveis
com aquilo que fazemos mas sem tentar impingir se esperar que elas gostem, sem
esp… porque ninguém é obrigado a gostar da nossa arte, ninguém é obrigado a
dar-nos dinheiro, seja o estado, seja quem for, porque se tu estás a fazer algo
que 99% das pessoas acha que é uma …, não tem valor, porque é que te hão-de dar
dinheiro, porque tu fazes, és artista, e és profissional de arte, não! Não! As
pessoas dão dinheiro para ver um concerto teu, para ver um espetáculo de
marionetas, porque estão interessados em ver, ou não, o estado apoia porque vê
interesse das pessoas ou não naquilo, e claro que aqui no meio deste jogo vai
haver exceções, vai haver exceções, vai haver injustiças e vai haver pessoas
que são mais beneficiadas que outras, mas o principio, o principio será sempre
esse, o interesse das pessoas, a arte, tu podes fazer arte para duas pessoas
hoje em dia e claro daqui a cem anos pode ser uma coisa massificada e ninguém
te deu dinheiro por isso e tu morreste, ninguém te deu dinheiro nenhum por
aquilo, mas a tua arte está ali, e a tua arte está ali e está intocável não a
tiveste de alterar por causa de estares dependente de um salário, não tiveste
de … é uma escolha, é uma escolha, e se tu escolhes ser…eu ainda não fiz essa
escolha, nem sei se alguma vez vou querer fazer estou naquela idade complicada
que não faço ideia do que é que vou fazer da vida, sei que vai ter a ver com a
música, ou seja, eu não tenho um futuro estabelecido, não sei se vou ser músico
ou não, depende, depende se as pessoas, se estas pessoas comprarem se me
comprarem todas discos, se forem aos concertos, e falarem aos amigos delas e
aparecerem então se calhar vou ser um profissional das artes, antes disso o que
é que me diz a mim que eu sou artista suficientemente bom para ganhar um
ordenado por isso, isso é o mesmo que eu decidir que sou detetive e vou, vou…,
e começo a investigar casos mas não consigo descobrir nada, não consigo
descobrir nada, …
Margarida Morgado - … tem necessidade de fazer isso?
Daniel
Catarino - …tenho necessidade e é por
isso que faço, e é por isso que não
faço questão de questionar-me se isso tem… da parte financeira, portanto, ou
seja, se quero viver disso exclusivamente ou não, porque a partir do momento em
que entra o dinheiro está tudo estragado, não é? Está tudo estragado, está tudo
estragado, tá…sim…
? (…) – … Toni Carreira…
Daniel
Catarino – …não, a
partir do momento em que entra o dinheiro para a equação, na tua cabeça, não
estou a falar do dinheiro entrar, estou a falar da equação da tua cabeça, como
em tudo…
Vicente Sá - …escuta uma coisa, podemos ir carregar todos as tuas
músicas no youtube ou numa coisa qualquer,…
Daniel
Catarino – … estão,
estão todas para donlowd gratuito na net,…
Vicente Sá - … donlowd
gratuito?
Daniel
Catarino – … sim, faz
favor…
Vicente Sá - …portanto, se não conseguires fazer mais nada na vida…
Daniel
Catarino – … morro,
…morro…
Vicente Sá - … continuas a fazer música e sei lá…
Daniel
Catarino – … não sei, … eu
acabei de adm… eu acabei de dizer que não sei o que é que vou fazer, eu acabei
de admitir o meu desconhecimento e acabei de dizer que não sei se estou
disposto… porque eu não quero chegar daqui a vinte anos e estar a fazer as
mesmas queixas que estou a fazer hoje, isso de certeza, ou que estou a ouvir
hoje, isso não pode acontecer, eu não posso chegar…, eu não posso ser um …
obrigado…, eu não…, este peso, estas discussões, estes debates, isto tem de ter
um objetivo, isto tem de caminhar por algum lado, e problemas eu estou farto de
ouvir apontar problemas, em todo o lado se aponta problemas, e soluções não há,
portanto, porque é que… qual é o objetivo de continuar nos próximos vinte anos
a apontar problemas, se o meu problema neste momento é o dinheiro em relação
aquilo que eu faço elimina-se esse problema, elimina-se esse problema que é, o
dinheiro deixa de entrar na equação e eu faço outro trabalho qualquer enquanto
faço música, como sempre fiz a minha vida toda, como estudei e fiz música, que
trabalhei em fábricas fiz música, trabalhei em call centres fiz música, dei
concertos, fiz traduções, sempre, isto esteve sempre constante, portanto eu na
minha arte…, se calhar há outras artes em que isso não é possível, eu na minha…
eu não quero sacrificar nada daquilo que quero fazer, e que quero dizer em
prole do dinheiro, porque para isso faço, arranjo trabalho, porque aquilo é uma
coisa que eu estimo, que eu val… é como vender a minha mãe, eu não vou vender a
minha mãe, pronto…
Margarida
Morgado – (…)
Daniel
Catarino - … mas se alguém a
quiser comprar por muito dinheiro eu vendo…
?(…) -
… a
independência…
Vicente
Sá - … sim, sim, claro,
todos os homens tem um preço, os honestos só são mais calmos, e mais caros…
Daniel
Catarino - …claro, exatamente…
Margarida
Morgado – … se tu deixares de
fazer música quando tens necessidade de a fazer negas-te a ti mesmo, e
vendes-te a um sonho vagabundo que é a sociedade de consumo …
Daniel
Catarino - …mas atenção eu quero
viver da música, eu quero ganhar muito dinheiro e ter carros e raparigas de
biquíni à minha volta, mas, mas quero fazer isso com a minha música, com aquilo
que faço, se as pessoas não gostam daquilo que eu faço o suficiente para eu ter
isso, pá tenho que fazer outras coisas, … adaptação? … Não se está a ouvir…
Dores
Correia - … pronto já se ouve, eu
estava a dizer que aqui deste lado está o José Alegria que é marionetista e
aplaudiu o que o Daniel Catarino estava a dizer, e além disso disse que merecia
um comentário, vamos ouvir.
José
Alegria – (… quase não preciso
desta coisa mas assim…) … é o … não…quero… merece um comentário, merece, foi a
intervenção mais livre que eu ouvi aqui esta tarde, e estou inteiramente de
acordo com ela, e só assim é que se consegue ser livre, se é artista ou não
isso é outra conversa, se alguém esta querer ser artista “de per si”, está
enganado, quem diz que nós somos artistas ou não, não somos nós, nós somos
trabalhadores da música, do teatro, da poesia, estou aqui a ver poetas ilustres
que são artistas porque eu lhe digo que eles são artistas, porque são poetas de
grande nível, como estava aqui um escultor a quem eu admiro as obras, tanto que
as admiro que se pudesse comprava-as, etc…, é o publico é a sociedade, que dá
esse valor ou não, e de facto também estava a dizer há uns que tem a sorte de
viver da coisa na altura, outros como o Van Gogh que alguém vive à conta deles passado
mais tempo, mas isso toda a gente sabe que é assim, eu achei muita piada…, ouvi
aqui coisas muito interessantes e algumas mesmo desagradáveis, mas não vou
falar nem de umas nem de outras, mas o conceito da história acho que é
fundamental para a gente perceber isto, nos anos 60/70 Évora tinha um cinema,
que era o Salão Central de inverno e uma coisa deliciosa que havia ali, e
depois fizeram um centro, uma coisa, ali no Stª Catarina, que era uma
explanada, que era uma coisa impressionante, a gente comprava tremoços e ia ao
cinema, era uma coisa deliciosa, os filmes eram como vocês imaginam a maior
parte deles maus, mas eu cheguei a ver aqui uma coisa do Dyer, aqui no Salão
Central, que as pessoas foram enganadas e quando aquilo acabou estávamos lá
três pessoas dentro, era eu um jovenzinho, também tinha duas companhias de
teatro de repertório duvidoso, de amadores, tinha uma banda de música que
quando saía chovia, e mais nada, nada, rigorosamente nada, os jovens da minha
altura passávamos ali…, estávamos na Praça do Geraldo até às quatro ou cinco da
manhã a conversar uns com os outros o que também não era mau, mas não tinha
rigorosamente nada, passaram-se trinta anos, ou o que é que foi ou mais, isto
mudou muito, o Mário Barradas veio para Évora e é se formos a ver é o pai disto
tudo, na altura quando ele para cá veio como não havia tinha que se fazer tudo,
tinha que se fazer teatro, tinham que se apoiar as companhias de dança que cá
vinham, tinha que se fazer cinema, tinha que se fazer tudo, hoje em dia
felizmente já não é necessário porque já há muita gente a fazer muita coisa,
portanto isto não tem nada a ver com o que foi à trinta anos ou trinta e tal
anos, isto mudou para melhor e muito, mas depois aparecem as outras coisas que
é o outro lado da balança, e aí encontramos um fenómeno que já havia naquela
altura e continua a haver agora, com raríssimas e honrosas exceções, as elites
desta terra, e estou a falar nas politicas, nas económicas e nas eclesiásticas,
sempre foram desde que eu me lembre, e estou quase a fazer sessenta anos, desde
que eu me lembre reacionárias, do pior que pode haver, e isso tem marcado
muito, e reacionárias naquele sentido…, nem sequer era no sentido de, de…, eles
até parecem às vezes liberais, mas só deixam mexer as coisas que eles pensam ás
vezes que controlam, às vezes enganam-se, e ainda bem, mas muitas das coisas
que foram feitas mesmo depois do vinte e cinco de Abril foram coisas pensadas
que eram controláveis e que não foram, e isso faz-me pensar numa coisa que ouvi
à bocado que tinha a ver com, quase com o lado claustrofóbico, como se não
houvesse aqui outra solução, outra hipótese, quer dizer estamos condenados, os
políticos dizem não, a igreja diz não, os comerciantes dizem não, os ricos
dizem…os terra tenentes, como é que se chamam?... ao lavradores dizem não, não,
mas há, há soluções como houve por essa Europa fora, quer artistas quer de
liberdade, em Barcelona, em Paris, em Amesterdão, em Rot… em todo o lado, de
gente que não ficou à espera, que lhes
abrissem as portas, que lhe pagassem a luz, mas que rebentaram com as portas, e
fizeram, ocuparam, e fizeram alguns dos centros comerciais, e de universidades
livres das mais interessantes da Europa do pós-guerra, nós temos é um síndroma
da distância, é que nós vivemos numa aldeia e temos vergonha de assumir isso
como verdade, nós vivemos numa aldeia com uma vida artística riquíssima mas
somos uma porcaria de uma aldeia pequenina que está encostada aqui no canto da
Europa que não tem nada a ver com a vida cultural do resto da Europa, e do
centro da Europa, nós andamos a brincar, nós descobrimos coisas passados
trinta, quarenta anos, e vendemo-las como se tivéssemos a inventar a pólvora,
coisas que já eram velhas quando eu era um gaiato, e depois enchemos a boca com
os conceitos como se Évora uma cidade…Évora … uma cidade lindíssima, Évora, eu
gosto de aqui estar, mas é uma cidade com a sua dimensão, e é uma cidade de
facto educadora como são todas as cidades que são…, como são educadoras, dentro
das suas circunstâncias como é obvio, já se falou ainda bem que apareceu
pessoas depois aí a defender os professores, que eu não gosto, basta a gente
ter um ou dois professores bons na vida
para valer a pena estudar, eu lembro-me
da professora que me ensinou o que era a poesia
foi uma professora de Francês, nunca me leu um poema, foi ela que me
ensinou, ensinou, ensinou do verbo ensinar, assim em grande, o que é que era a
poesia, foi ela que me fez… eu, … não foi…, ela não me ensinou, eu que aprendi,
é diferente. Pronto, eu estava a ir já um bocado…. Basta um ou dois chega bem,
os outros não int… os outros tem que ser mau como tudo, é como os artistas, os
marionetistas somos trezentos, é pá temos que ser “pouquexinhos” bons então
senão não vivemos disto, etc… Agora em relação à Cidade Educadora, só para
terminar, e em termos sintéticos um exemplo só para … é evidente que Évora é
uma cidade educadora, nós quando vamos na rua e damos um pontapé numa pedra porque
a pedra está levantada dizemos “porra”, aprendemos a dizer “porra”, é uma
cidade educadora, mais uma vez parabéns pela tua intervenção, de que gostei
muito.
Dores
Correia – Muito obrigada José
Alegria, há mais duas pessoas que se inscreveram, Luís Garcia tinha-se
inscrito, agora? Pode ser?
Luís
Garcia - …não, ia…ia tentar,
estas reflexões aqui feitas, como é hábito, abordam um conjunto vastíssimo de
dificuldades, e a necessidade que cada um tem, cada associação, cada criador,
etc… A necessidade que tem de encontrar soluções no quadro da sua maneira de
estar, no quadro da sua associação, o que é natural também, agora é evidente
que estamos aqui a falar de Cidade Educadora e eu acho que sim como o Zé diz,
todas as cidades são educadoras, ou algumas deseducadoras, algumas são, são
mais selváticas, outras menos, e há um elemento que para mim é essencial numa
sociedad…, numa Cidade Educadora, é a consciência que os poderes tem do que é o
interesse público, e nessa medida o ser, o assumir-se como Cidade Educadora, é
um passo em frente no sentido dessa consciência, se a assunção for recheada de
todos os ritos, e de tudo, de tudo o que deve ser que dalguma forma deve
sustentar essa vivência, essa vivência que no fundo é uma vivência de
comunidade educativa, a cidade é uma comunidade educativa, que envolve as
escolas, que envolve os agentes culturais, envolve os agentes todos envolve as
pessoas, e é evidente que o interesse público é fundamental nisto, eu percebo a
perspetiva do Daniel, é de facto a perspetiva mais livre, é aquela que se tenta
libertar até do dinheiro, eu também gostava nas minhas utopias o dinheiro é
alguma coisa a abater, agora todos nós temos de comer e a repartição destas
coisas decorre exatamente do sentido do interesse público, … isto na área da
economia percebe-se melhor, aliás estamos a atravessar esta crise e aí
percebe-se melhor o que é que é o interesse público, e o que é que acontece
quando o estado se retira por completo e digamos que joga o paradigma da
liberdade económica, que é um paradoxo, é obviamente um paradoxo, não há
liberdade económica, há liberdade de uns explorarem mais os outros, quando não
há regras e isso vai-se potenciando, é aquilo que estamos a viver hoje, e ao
nível das questões da cultura e da educação acontece exatamente o mesmo, o que
está a acontecer na economia neste país e nesta cidade está a acontecer com as
questões da cultura, o estado, o estado das instituições todas do estado ao
retirarem-se criam esta espécie de selva em que cada um tem que se desenrascar,
tem que arranjar espaços, tem que alugar o espaço, há uns que sim outros que
não, tem que arranjar dinheiro para pagar o aluguer do espaço, e é isso que
estamos a viver hoje, portanto nós vivemos numa sociedade que tem o rótulo de
Cidade Educadora, mas de educadora tem aquilo que o Zé alegria disse, tem de
facto… há aqui umas, há aqui umas idicíotrazias locais que, que nós vamos
aprendendo, e que enchem de colorido ainda assim a nossa vida, mas de Cidade
Educadora Évora tem pouco.
Dores
Correia – Muito obrigada Luís,
também o Joaquim Carrapato tinha pedido de novo …
Joaquim
Carrapato - … peço
desculpa, só uma pequena intervenção; o Daniel, julgo que é assim que se chama,
o Daniel fez aqui uma observação, e no fundo um pensamento, que ultrapassa…,
digamos que, é um pensamento de todos os grandes criadores de arte, no fundo a
cultura é entendida como um modo de estar na vida, e isso era importantíssimo
que se conseguisse viver assim, a cultura é um modo de estar na vida, eu também
ten…, gosto de fazer uns bonecos e umas coisas e não vivo daquilo que faço,
porque não chega para todos, e só efetivamente aqueles que são bons, aqueles
que conseguem, digamos, um estatuto, às vezes os estatutos conseguem-se das
formas que nós nem sequer advínhamos, há aqueles prémios pessoas, os prémios
daqui, os prémios dali, porque estão no sitio certo na altura certa, e
conseguem que alguém veja aquilo e diga assim “isto está aqui, é isto mesmo que
eu queria”, mas isso não chega para todos efetivamente, portanto vê a cultura
como um modo de estar na vida, e há aqui um…, enfim, eu estou-me a recorrer
aqui duma, duma apresentação de professores brasileiros, é “A Cultura Urbana e
Educação”, este é Ecio Salles, que é mestre licenciado pela Universidade de
Brasília, e diz assim aqui a certa altura “ … a cultura pensada como processo
atua no quotidiano das pessoas modificando-as produtivamente, potencializando
os sujeitos das ações, incidindo sobre a comunidade reforça laços, estimula a
conquista de autoestima, produz pensamentos sobre o lugar de cada um na rua, no
bairro, na cidade, no país, no mundo, abrindo-se à possibilidade de transformar
e de democratizar esse processo…”, quer dizer isto são palavras muito bonitas,
mas se calhar utópicas, mas são lindas e gostava que alguém conseguisse viver…,
enfim, com estes poemas, que infelizmente não consegue, mas também não consegue
noutras profissões, porque se nós formos ver…, andarmos aqui…, eu quando
comecei a trabalhar e já tenho uma certa idade, não sou dos mais velhos mas
pronto já tenho sessenta anos, eu não tive dificuldade nenhuma há quarenta anos
de arranjar um emprego, eu tinha dezoito anos e acabei o emprego…, acabei a
escola, o liceu, e eu comecei a trabalhar numa coisa qualquer, no
caminho-de-ferro, por exemplo, foi …, e passado um ano ou seis meses não me apeteceu aquilo e fui
para outro lado, e andei na industria hoteleira e depois fui…, e andei por aqui
e por ali, infelizmente hoje não é possível fazer isso, quer dizer vamos culpar
quem? Pá a minha geração fez o 25 de abril, né? Quer dizer eu não sei se sou
culpado ou não mas não me ponho de fora, mas devo ter algumas culpas também,
não vou dizer que não tenho, pronto se calhar criamos expetativas, muitas
expetativas nos jovens, criamos universidades a mais, criamos coisas a mais,
que hoje não sabemos o que é que havemos de fazer com aquelas pessoas, quando eu
vejo aqui a universidade, e há bocado li aqui umas coisas dos cursos da
universidade de Évora, cursos técnicos, cursos de teatro, cursos de … onde é
que vamos, o que é que vamos fazer com estas pessoas? Com estes jovens que
merecem outra coisa, eu acho que os jovens mereciam outro país, outra coisa
para fazer, e merecem muito mais do que isto do que nós lhe conseguimos dar, é
pá isto é uma reflexão, não é, no fundo não é nenhuma pergunta, no fundo é uma
resposta digamos, é uma interpelação ou é uma reação aquilo que o Daniel disse,
porque eu achei interessantíssimo mas é pá, o nosso tema é os jovens criadores
e a construção de Évora, … Cidade Educadora esta, depois virgula Cidade
Educadora, estão aqui duas coisas diferentes, “Os Jovens Criadores e a Construção
de Évora, numa Cidade Educadora” ou não, até podia não ser uma cidade
educadora, mas o que é que os jovens educa… os jovens criadores, que até são
muitos, como disse à bocado o Alegria no nosso tempo de rapazes não havia nada,
não acontecia coisas nenhumas, e hoje estamos aqui a debater com jovens
criadores; eu conheço bem o Alegria e o trabalho dele, adoro o trabalho dele
faço também às vezes uns bonecos, já fiz e outras pessoas de Évora, que aqui há
vinte ou trinta anos não existia nada, há trinta anos não existia nada disto,
hoje podemos fotografar, e filmar, gravar e amanhã recordar estas coisas, e
acho que isto só é interessante, embora, pronto como todos sabem, eu já estou
aposentado, ainda consegui uma reforma para viver, não sei se dará para o lar
amanhã quando ei tiver que ir para o lar, mas acho que não vai dar, mas pronto,
eu tenho pena é da rapaziada que vai ter ainda muito que fazer, para conseguir
lá chegar, era só isto, obrigado.
Dores
Correia – Muito obrigada, eu ia
pedir só agora um bocadinho, também para esclarecer aqui uma dúvida, é que eu
não sei se toda a gente sabe, por causa da questão da Cidade educadora, o
Joaquim Carrapato estava aqui a pôr a questão, o Luís Garcia ainda à pouco
falou, o José alegria… é preciso clarificar aqui o conceito, porque este ciclo
de debates tem a ver com isto, Cidade Educativa é, são todas as cidades isto é
um conceito que o senhor Edgar Fur em setenta e dois lançou num celebre
relatório para a Unesco que se chamava “Aprender a Ser”, e ele disse na altura que
achava que no futuro todas as cidades iam ser a grande instituição educadora e
por isso lhe chamou as Cidades Educativas, e essas sim são todas, todas as
cidades, todos os lugares como ainda há bocado aqui se disse educam e por isso são educativos, Cidades Educadoras,… Cidades
Educadoras foi lançado em Barcelona, e de facto são cidades educadoras, todas
aquelas cujo governo local, … neste caso, no caso de Portugal são as autarquias
cujo as Câmaras dizem que a vocação da educação é a sua prioridade, e como é
que dizem isto? Dizem formalmente numa instituição assinando um documento
através de uma carta de intenções, a diferença entre as cidades que …, onde se
aprende a dizer todo e mais alguma coisa e as cidades educadoras é esta, e
Évora é desde dois mil Cidade Educadora porque o governo e o governo da altura,
a Câmara da altura …, que tem sido, é uma intenção que tem sido renovada é um
propósito que tem sido renovado desde então, consideram que esta cidade tem
como prioridade a questão da educação, isto era só, digamos uma clarificação
para que as pessoas saibam o que é que é isto de Cidade Educadora, depois a
questão que se coloca é se há doze anos Évora é formalmente Cidade Educadora
como é que isso se reflete nas práticas que conhecemos, nas muitas práticas e
nas muitas realidades, reflete-se ou não se reflete? Este…, eu peço desculpa de
estar…, eu não queria condicionar os debates mas esta é a questão de fundo que
vamos colocar aqui sempre em todos os debates, estamos de facto a sentir essa
vocação educadora, essa vocação primo…, assumida como prioritária, ou ela é um
pouco invisível, ou sente-se menos? Muito obrigada, Pedro.
Joana
Dias – … eu gostava só aqui de
falar um bocadinho porque eu vim cá como designer e ainda não falei nada sobre
o que é que é realmente a minha profissão só falei da associação, pronto faço
parte, mas queria, queria, queria-vos falar que isto de ser designer em Évora
também não é, não é tarefa fácil, o nosso projeto é um projeto familiar, os
meus pais pagam o espaço, pagam as contas…, algumas, a loja vai dando para
pagar as outras contas, estou há dois anos a trabalhar ali nunca recebi um
ordenado, faço uns bolos para ganhar uns trocos para poder comprar algumas
coisas para mim, a maior dos trabalhos que tenho…, e se calhar esta foi da
decisão de voltar para Évora, se calhar foi a parte pior foi vir para o sitio
onde conheço as pessoas, e a maior parte dos trabalhos que me pedem pedem-me de
graça, uma pessoa tem que fazer portfólio não tem outra saída e acaba por fazer
muitos trabalhos de graça…, alguns são pagos, o que é certo é que até ontem…, o
Roger está ali, ele está a trabalhar comigo neste momento, e ontem estávamos
com uma dúvida existencial, se o problema era nosso ou o que é que é que se
está a passar, porque a maior parte dos nossos clientes ou amigos, quando nós
fazemos um trabalho, o trabalho está impecável e está o produto final, e quando
a gente o vê na rua o produto deixou de ser o nosso produto porque sofreu umas
alterações pelo caminho, está desvirtuado, está…, as coisas para nós é um
bocadinho…, custa-nos um bocadinho, porque é um bocadinho falta de respeito, eu
também não vou ao concerto do Daniel fazer um coro só porque sim, não é… quer
dizer…
Daniel
Catarino - … mas
podes…
Joana
Dias - … obrigado…, mas eu
acho que é isso…, eu acho que quando, quando ainda por cima a coisa é de graça,
vem-se um bocadinho no direito de…, vou só aqui fazer mais qualquer coisinha,
ou vou só alterar qualquer coisinha, … espera, espera…
Roger
- … em relação aos outros convidados é que a
grande diferença aqui é que a nossa profissão é comercial, é uma…, isto é
artístico mas designer gráfico é uma profissão das nove às cinco, por assim
dizer, e tem…, tem como intuito a…, é uma profissão como outra qualquer, mas acima
de tudo…, não como a música, não tens aquela questão criativa tal como o
designe, é profundamente comercial, trabalhar para clientes, para dinamizar
coisas de clientes, então aí nós temos um grande problema aqui em Évora de
ordenados, de dinheiro, porque nós também como aquele senhor disse, nós
precisamos de receber, nós trabalhamos para a associação como…, de graça, tenho
todo o gosto de trabalhar para a associação É Neste País, para fazer uns
trabalhinhos, mas ao fim do dia nós temos também uma profissão que é designe
gráfico, nós somos designers e precisamos de receber, à e é naturalmente
difícil, que nós já saímos da universidade há já algum tempo e já tava na
altura de receber, tudo bem que portfólio já temos muito, mas o grande problema
desta cidade acima de tudo, e eu que não sou de cá, é essa falta de educação
perante o trabalho das pessoas ligadas à arte e pronto, no nosso caso é o
designe.
Dores
Correia - Foi o Roger que também
é designer, como se percebeu, e agora a Helena Figueiredo.
Helena
Figueiredo – Muito
obrigada, eu ouvi o Zé Alegria e ouvi ali o outro amigo que eu peço desculpa
agora de não mencionar porque tive uma branca que oh pá até isso, também eu
conheci, conheci…, eu não sou de cá e estive trinta anos fora da cidade, estive
na década de sessenta, e voltei nos anos dois mil, e a cidade mudou muito de
facto, mudou culturalmente, mudou…, enfim mudou o ambiente a descontração que
hoje se tem na cidade e que não se tinha então, isto correu em trinta anos
porque Portugal foi o país educador durante esses trinta anos, houve um esforço
não de Évora, mas houve um esforço coletivo, acho eu, para se mudar
mentalidades para se educar as pessoas, para se dar teatro, para se dar cinema,
haver espetáculos de dança, portanto houve um esforço coletivo e houve um
esforço dos poderes públicos, para que houvesse esta mudança, e eu questiono-me
é então e nos últimos dez anos houve este mesmo esforço, ao nível local para,
para mudar, para abrir a cidade à criação, para tornar os jovens mais
esperançosos? Eu lembro-me e está aqui quem não me deixa mentir, que várias
vezes tenho dito se queres fazer carreira sai daqui, vai-te embora, vai para
Inglaterra, vai para o Porto, porque de facto eu acho que a cidade não é muito
mãe, é uma cidade aberta culturalmente é uma cidade onde acontece muita coisa,
mas onde não há apoio ativo, não me parece que haja um empenhamento das…, dos
poderes públicos, todos os poderes públicos, como dizia a minha amiga Carmem à
pouco, para que as pessoas possam aqui, para além de ter o gozo da criação e o
divertimento, poder pagar a renda da casa, poder não estar dependente do pai,
ou da mãe para ir jantar com os amigos e para ter a sua casa e a sua vida, e é
isso que faz falta, temos uma cidade muito pequena, não nos podemos esquecer
que é uma pequena cidade não é uma média cidade, é uma pequena cidade, portanto
não há massa critica suficiente para que os criadores, os jovens e os outros
vivam da venda de espetáculos, e portanto ou o numero de pessoas que vive da
arte se reduz, quer dizer se é que ainda se pode reduzir mais, ou as pessoas
perdem a esperança de fazer da arte a sua, o seu modo de vida também, ou então
temos de ter politicas ativas de apoios às artes, e sobretudo também de criação
de públicos, porque esta história da borla não é só para os jovens, eu canto
mal, mas canto num grupo, e lembro-me nós recusamos a ir à inauguração da
arena, porque toda a gente era paga e nós fomos convidados para ir abrilhantar
a sessão, e nós decidimos que não íamos, somos amadoras…, mas enfim quer dizer,
há também alguma dignidade que também há que preservar, portanto os poderes
públicos tem que assumir as suas responsabilidades, e tem que dizer claramente
não há dinheiro, não fazemos, ou então apoiar seletivamente com critérios de
transparência, mas apoiar, porque há associações, não é só o Catarino que não
tem onde ensaiar, há associações que pagam a renda mensalmente, associações
conhecidas na cidade, há associações que não tem um tostão de apoio de ninguém,
e fazem serviço público, quando andam nas escolas a fazer teatrinhos, ou a
trabalhar com crianças ou a ensinar música estão a fazer aquilo que o estado
tem a obrigação de fazer e que não faz, e portanto estão a fazer serviço
público, e tem de ser pagas por isso, como são pagos os transportes públicos,
como é paga a saúde, portanto os poderes públicos tem que pagar, nós ouvimos
aqui há muito poucos dias que a DGARTES este ano…, os apoios à cultura e às
artes são zero, não há um tostão para projetos artísticos, enfim isto é ao
nível nacional não se quer um país culto, penso eu, quando se faz este tipo de
opção, porque nós estamos a hipotecar as gerações futuras, estamos a matar a
cultura, estamos a matar o desenvolvimento das pessoas, e aqui na cidade temos
que ter o mesmo tipo de clareza, quer-se uma Cidade Educadora ou não? Se não se
quer, amigos como dantes, não podemos é dizer que somos uma Cidade Educadora e
depois “bye, bye, Maria Morena, que há melhor tempo noutros sítios”, portanto
acho que há uma clarificação que estes debates ajudam a fazer, acho que há
pequenas coisas que se podem fazer não custam dinheiro a miguem, tem antes a
ver com a postura, o Pedro à pouco falou também do movimento da cultura na rua
que nasceu no verão, uma das coisas que foi muito debatida foi a impossibilidade
dos jovens músicos poderem tocar na rua, performers…, porque vem a policia,
porque é preciso uma licença, portanto há um conjunto de pequenas ações que não
custam dinheiro a ninguém que apenas tem a ver com vontade…, com vontade, e é
muito, é muito complicado como dizia a Ana, é muito complicado como dizia a Ana
Rita, e eu acho que essa descomplicação é estes debates, agradeço à Dores
também, fazer esta divulgação por toda a gente, e estes convites para nos
trazer a estes debates, porque eu acho que as pessoas estão ansiosas e sedentas
por, por discutir, porque há muita coisa que se pode fazer, há muito caminho
que se pode desbravar, para que as pessoas que tem condições para criar que nos
podem melhorar a vida de todos nós enquanto sociedade e enquanto indivíduos
criando, tenham espaço para o fazer, não se sintam a mendigar, porque estão-nos
a fazer um favor não estão, não estão, não estão a pedir nenhuma benesse,
estão-nos a ajudar a crescer enquanto pessoas, muito obrigada.
Dores
Correia – Muito obrigada Helena,
também o Vicente Sá tinha pedido de novo a palavra…
Vicente
Sá – Eu achei…, achei
extremamente importante à pouco a Dores ter puxado o debate ao seu, ao seu
cerne, e de facto educadores somos todos nós, Cidade Educadora que assina um
protocolo, um determinado protocolo que visa promover uma serie de atitudes
relativamente à educação e à cultura, à promoção cultural etc., etc…, eu tive
uma experiência, tive uma experiência há uns anos quando acabei o curso de
atores estive na minha terra Viana do castelo a trabalhar com a oficina de
teatro do Centro Cultural do Alto Minho, na altura estávamos…, eu fiz a
coordenação de montagem do Auto da India de Gil Vicente que foi encenado lá
pelo Mário Barradas, e fizemos vários espetáculos em várias escolas, uma dessas
escolas foi a Escola Secundária de Stº Maria Maior, o antigo liceu de Viana, em
que fomos fazer esse espetáculo, o que é que eu me deparei, deparei-me que ao
mesmo tempo havia uma serie de atividades programadas, entre as quais um género
de espetáculo de, de variedades organizado pela…, pelo núcleo de francês da
escola, eles não tinham equipamentos nenhuns, no momento eu falei com a direção
do Centro Cultural do Alto Minho e como nós nesses três dias não teríamos
nenhum espetáculo, falei com eles no sentido de cederem o material de
iluminação, pelo qual eu ficaria responsável e estive a dar uma ajuda aquele
grupo quer de professoras de francês, professoras porque eram só senhoras,
jovens, e aos alunos, claro que nesses três dias de preparação de ensaios eu
fui dando algumas dicas, algumas informações, uma formação sumária aqueles
jovens, o que é certo é que quando eles subiram finalmente a palco para uma
apresentação pública já tinham mais qualquer coisa de, de, de…, que sustenta-se
a sua apresentação, mas mais engraçado que isto é que a seguir, seguia-se um
festival de teatro escolar, em que participavam vários grupos de teatro de
várias escolas, o espirito critico destes jovens que tinha trabalhado comigo
não tinha rigorosamente nada a ver com todos os outros colegas da mesma escola,
e dentro de…, dentro desse espírito crítico eles punham-me questões muito
objetivas sobre a estética, sobre a, a técnica, punham-me essas questões às
quais eu dava resposta, dizia aquilo não estará bem assim, mas …, bom explicava
isso, mas a capacidade de questionar essa mesma expressão artística já era
completamente diferente, ora Cidade educadora, os artistas das várias vertentes
se tiverem oportunidade, um espaço para trabalhar com os alunos das escolas e
esses estão lá todos os dias e basta boa vontade para eles, agora depois há
outra coisa que é extremamente importante e lá nos prendemos nós com o vil
metal, é que o “stôr”, o “stôr” médico, não dá consultas nas horas vagas, ele
dá consultas nas suas horas de trabalho e é pago por isso, o “stôr” advogado,
dá consultas e vai defender julgamentos nas usas horas de trabalho, o
carpinteiro trabalha nas suas horas de trabalho, os artistas tem um espaço de
preparação, podemos ser todos amadores,
podemos pois podemos, mas não é a mesma coisa, onde é que eu fui buscar
isto…, mas podemos ser todos amadores, já fui amador durante muitos anos,
podemos sem dúvida, agora garanto-vos uma coisa e falo-vos por experiência
própria, eu fui apontador de obra numa obra de construção civil, foi um emprego
que eu arranjei, eu digo-vos que entrava às oito da manhã e cheguei a sair de
lá depois de serem carregadas placas, não era eu que as carregava mas tinha que
lá estar, às dez e onze da noite como é que eu vou ser amador senão da minha
cama, é a única coisa que eu quero amar nesse momento, é a minha cama, nem uma
mulher que tenha ao lado sequer…, se eu…, um escultor, o escultor dá-lhe telha
no momento “agora vou fazer isto”, há momentos em que ele olha para uma pedra e
não consegue tirar de lá nada…, eu se me apetecer escrever um poema olho para
uma folha de papel e posso não escrever lá nada, porque não consigo, não sai,
mas o ator, o ator por exemplo tem um tempo de trabalho, tem de trabalhar esse
tempo, de fazer preparação de fazer pesquisa, repetir, repetir, repetir, ou
então é um amador, pode ser um bom amador, pode sim senhora, pode ser um bom
amador, mas é esta, é esta estrutura este escalonamento que se calhar é
necessário criar numa Cidade educadora que é a interação entre a escola, entre
a formação, entre a criação de públicos e os próprios artistas, públicos e
quando digo públicos, digo público de pintura, público de escultura, público de
música, público de teatro, público de designe, público de todas as artes que
possam existir, é esse dialogo, essa interação, essa preparação que depois virá
a resultar em que amanhã aquele jovem
que se lambuzou em tintas, chegou a casa todo pintado, com o bibe todo borrado,
só dá chatices à mãe e à senhora professora que depois apresenta-o assim à mãe
, não é, é um problema, porque também já fiz um levantamento sobre …, há muitos
anos, sobre as artes na escola primária da minha aldeia, que na altura era uma
grande aldeia, hoje tem cinco mil habitantes, tem mais habitantes que certos
concelhos do Alentejo, o que é que se fazia no plano artístico e no plano das
atividades físicas, “ah, isso dá muito trabalho”, “ah vieram uma moças que no
principio ainda arredavam as cadeiras da sala,
mas depois aquilo tinha que se arredar as cadeiras para fazer
ginástica”, aí e pintarem, sujam-se todos, chafurdar em barro nem pensar…, é
este chegar às escolas. Eu tenho um conceito para mim, desculpem-me se me estou
a exceder neste capítulo, mas pedagogo nasce-se, depois pode-se educar, mas
pedagogo nasce-se, e a capacidade de ser pedagogo é uma coisa…, também é arte…,
como é que eu comecei a dizer poesia, porque a minha mãe gostava de me ouvir,
mas um dia no liceu uma professora incomodada quando eu dizia o mostrengo numa
aula de português, com toda a pompa e circunstância e com toda a voz trovejante
que tenho, a professora da sala do lado chega de rompante e quando vê que estava
lá o professor Zé Vale Ferreira, que me recorda o nome, “Senhor Professor pode
pedir ao aluno que fale mais baixo?”, “que quer a senhora que faça não vê que
ele está a dizer poesia!”, eu fiquei inchado, claro, mas esta interação, se
pretendemos uma Cidade Educadora tem que haver interação entre escolas, e os
artistas, os produtores artísticos, as escolas das artes, etc…., para que amanhã o jovem que fez isto quando
for médico, ou quando for outra coisa qualquer, não me telefone quando
aconteceu outro dia, “ouve lá tu não arranjas bilhetes à borla para o teatro?”,
ao que eu respondi, “não, não arranjo”.
Dores
Correia – Muito Obrigada ao
Vicente, a todas as pessoas que muito generosamente participaram, através da
sua presença, através dos seus contributos, não é de circunstância este
agradecimento uma vez mais, uma vez que sem esta participação o trabalho que
estou, que estamos a tentar desenvolver sobre a Cidade Educadora não era
possível, porque parte de uma metodologia que é participativa, por isso queria
agradecer a todos, agradecer muito especialmente às pessoas da mesa que se
dispuseram a dar os seus contributos de uma forma tão generosa, e agora
devolvo-vos a palavra para se calhar terminarmos, uma vez que nos vamos
aproximando da hora, muito obrigada.
Daniel
Catarino - … bom,
posso só aproveitar para dizer que a diferença entre um advogado e um médico é
que nenhum deles depende da opinião dos outros sobre o seu trabalho, para
sobreviver…, não, não se for médico do estado ou advogado do estado não precisa…,
não dependem tão diretamente da opinião das pessoas sobre o seu trabalho, e
demoram muitos meses e muitas cláusulas até serem despedidos, enquanto o músico
simplesmente não vais ver ou uma peça de teatro simplesmente não se aparece e
não aparecendo essas pessoas não ganham dinheiro. É só o que eu acho que não é
bem igual, foi a única coisa que eu descordei foi essa comparação porque são
coisas totalmente diferentes.
Joana
Dias - …acho que não…,
obrigada Dores, foi muito bom estar aqui…
Pedro Pinto - … bem cabe-me a mim fechar a
loja, estamos na hora, acho que correu bem, talvez tenha sido dos debates mais
participativos e era isso que se queria, não era concentrar a conversa aqui mas
na sala toda, agradeço a toda a gente, eu agradeço em particular à Dores o
convite e o que estes debates proporcionam, porque a Cidade Educadora também se
faz aqui, se os poderes instituídos não tratam disso tratamos nós, obrigado e
boa noite.
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