Um blogue de apoio à construção de uma cultura de Cidade Educadora nas Cidades da Rede Portuguesa de Cidades Educadoras

domingo, 1 de julho de 2018

Transcrição do conteúdo do debate nº6


Transcrição do conteúdo do debate nº6 - “Café Condestável”, Évora, 19 de Julho 2012 
Tema: “Os políticos eborenses defendem a construção de Évora como Cidade Educadora?” 
Participam os representantes dos partidos políticos com assento na Assembleia Municipal de Évora durante o mandato de 2009- 2013. 
A organização deste ciclo de debates endereçou convites às estruturas concelhias destes partidos políticos a quem coube escolher os seus representantes neste encontro. 
Participantes na mesa: 
1.Bloco de Esquerda – Amália Oliveira, bióloga, investigadora na Universidade de Évora, eleita pelo Bloco de Esquerda na Assembleia Municipal de Évora; nomeada pela estrutura local do BE para representar este partido político no debate. 
2.Partido Comunista Português – Eduardo Luciano, advogado, vereador da CDU na Câmara Municipal de Évora, líder da oposição política à autarquia governada pelo PS; indicado pela Comissão concelhia de Évora do PCP para representar esta estrutura no debate. 
3.Partido Social Democrata – Nuno Alas, sociólogo, recém-eleito Presidente da seção de Évora do PSD. 
4.Partido Socialista – Manuel Cabeça, professor do ensino secundário, membro do Conselho Municipal de Educação em representação da Direção Regional de Educação; indicado pela estrutura concelhia do PS como seu representante neste debate. 
5.Moderador - Silvério da Rocha-Cunha, Diretor da Escola de Ciências Sociais da Universidade de Évora; doutorado em teoria jurídico-política em 1998 em Évora com uma tese de Teoria Jurídico-Política (área de Filosofia Política) intitulada “Sentido e Possibilidades do Discurso na Cidade numa Era de Mal-Estar”. 
Silvério Rocha-Cunha: 
Cumprimentos e agradecimentos de abertura. 
Apresentação do tema: A cidade de Évora como Cidade Educadora. 
O termo cidade é equívoco, no bom sentido, porque referimos a cidade em termos comuns. A cidade também é um termo de coletivo; coletivo imaginário que cria algo em comum. 
Quando tomamos o conceito político de cidade e relembramos o conceito de polis temos um chapéu-de-chuva comum, valores comuns. Ainda que a Grécia não fosse perfeita, mas havia nela um princípio: A cidade é um coletivo com normas comuns. Os homens que viviam debaixo desse chapéu-de-chuva comungavam dos mesmos valores independentemente das suas opções. 
O que deu originalidade ao Ocidente, e não acontece noutras civilizações, é uma ideia de cidade onde se partilham valores comuns, mas dentro desses valores são admitidas ideias diferentes. Daqui nasceram ideias como a da democracia direta, ou a ideia de que os cidadãos podem participar de forma livre em torno do que é comum.  
Conta-se uma anedota sobre a Grécia Clássica onde um homem tendo declarado que nada tinha a ver com a cidade e que por nisso nela não se queria envolver, recebeu como resposta que assim não podia ali manter os seus negócios. Se não queria envolver-se com a cidade não tinha o direito de nela negociar. 
Segue-se ainda uma segunda anedota segundo a qual na Grécia antiga seria tão grande a participação nos assuntos da cidade que, até as penas ou castigos a cidadãos em resultado de comportamentos ou condutas supostamente indevidas, recolhiam as opiniões da ágora. Sobre uma certa proposta para 6 anos de ostracismo para um certo cidadão que está entre os que se pronunciam, um outro cidadão acabado de chegar à cidade e alheado do que se passava, chamado a participar responde que concorda com a pena. Quando o próprio condenado que está a seu lado lhe pergunta se conhece a pessoa acusada o cidadão responde-lhe: “Não, mas estou farto de ouvir dizer que ele é boa pessoa. (08:00) 
Estas anedotas remetem para a ideia do que é comum. Os cidadãos podem ter uma ideia do comum. Mas essas ideias podem ser insignificantes ou mesmo erradas. 
Coloca-se então a 1ª questão: Quando se fala de Cidade Educadora fala-se de um coletivo ou de uma comunidade. Vivemos em sociedades complexas onde o coletivo é extremamente difícil de alcançar. Vivemos em sociedades que apostam na ideia de individualismo, uma ideia moderna com cerca de 500 anos que exportamos para todo o mundo. (09:00) 
Haverá então uma impossibilidade “ontológica” (entre aspas) uma impossibilidade em si mesma, de haver cidades educadoras na civilização onde vivemos? 
O cidadão que está hoje aqui a debater pode ao mesmo tempo conectar-se pelo telemóvel, ou por uma muito larga gama de possibilidades que o pode afastar do comum e conectar-se com interesses específicos que são só seus. Julgando-se livre pode afastar-se do comum. Este é um problema político, político-cultural.  
Eu julgo que os partidos políticos locais devem ter uma qualquer ideia sobre isto. Não haverá impossibilidade de considerar a Cidade Educadora como viável numa civilização que valoriza o individual, optando pelo menos comum? Será que não há aqui uma enorme contradição? É possível uma Cidade Educadora sem cidadãos? 
Os partidos com responsabilidades locais e nacionais terão de pensar nisto. (11:45) 
É possível uma Cidade Educadora com uma multiplicidade de participação? Que ultrapassa largamente o comum? O próximo? O próximo concreto? 
E se for possível? Como ultrapassar aquilo que nos impede de sermos cidadãos no sentido de partilharmos o comum?  
Podemos educar-nos através do comum, localmente, quando vivemos globalmente, num sistema global onde tudo se passa quase em tempo real? 
Nuno Alas
(12:08) A sociedade tende a promover a individualidade, o individual e a falta de objetivos comuns. Mas, ao mesmo tempo essa individualidade tende a organizar-se ou agrupar-se em pequenas tribos ou movimentos.  
Nós, quando refletimos sobre o desenho que defendemos para a sociedade, defendemos o personalismo e a individualidade; e a forma como os pequenos grupos e pessoas agem ou são capazes e agir nas diferentes dimensões da vida. 
É nesse sentido que entendemos sinceramente que é possível promover a Cidade Educadora nas suas diferentes dimensões, ainda que de forma algo espartilhada e algo dividida. (12:55) 
Mesmo que a tendência seja para uma sociedade cada vez mais individualista o poder político e os partidos têm o dever de saber aproveitar o melhor dessas tendências ao dispor dos outros e estimular a participação das pessoas nesse sentido. 
O Prof. Silvério referiu-se ao individualismo que as novas tecnologias promovem, mas também daí julgo ser possível retirar vantagens, gerar movimentos capazes de sustentar uma Cidade Educadora. 
As diferentes dimensões da Cidade Educadora vão da educação mais formal, às questões culturais; às ambientais, de identidade, património de uma cidade. 
Julgamos que é possível construir a Cidade Educadora. (13:58) 
Mas também pensamos que não cabe apenas à esfera política e aos organismos de exercício do poder, quer ao nível local, quer ao nível nacional, estimular essa Cidade Educadora. Esta cidade tem de ser apoiada pelo poder político, mas tem de fazer surgir movimentos que possam eles próprios criar a Cidade Educadora. 
Eduardo Luciano: (14:45) 
Não me parece impossível a Cidade Educadora apesar de todo o espartilho, de toda a troca de informação espartilhada, de todas as intervenções individuais, individualizadas, individualistas, apesar de todos os apelos a essa participação espartilhada. 
A Cidade Educadora é uma cidade de cultura. De culturas. Uma cidade em que se constrói pela participação de todos os cidadãos. Assume-se hoje, diferentemente da antiga Grécia já que todos os cidadãos têm essa categoria. 
Ultrapassar esta impossibilidade, pelo menos aparente, de construir a Cidade Educadora, compete muito a quem governa a cidade em cada momento. Compete a quem detêm instrumentos de comunicação que são fundamentais para pôr os cidadãos a participar.  
Já aqui em debates anteriores se ouviu dizer que antes, há 35 anos era mais fácil essa participação. Sabemos que hoje, cada vez mais cada um se refugia na sua própria cidade, entre quatro paredes, ou nos seus próprios conceitos.  
É necessário afastar o estigma de que a democracia se esgota na representação. Cada vez menos se esgota na representação. Cabe ao poder político local promover essa participação.  
Um executivo municipal pode reunir com os representantes de uma freguesia, mas pode também reunir com os fregueses. Não basta no final de qualquer debate assumir uma decisão, ao abrigo da legitimidade de voto. Essa decisão deve incluir a opinião dos cidadãos. É na rua, no encontro com os cidadãos nos mais variados grupos formais e informais que a decisão deve ser construída.  
Quando o poder se refugia na sua legitimidade formal, ou nos requisitos legais foge do debate com os cidadãos, cria essa ideia de impossibilidade de Cidade Educadora. 
Obviamente que sabemos que o conceito de Cidade Educadora está em construção e é tão flexível como a própria cidade. Mas não podemos convidar os cidadãos a participar e recusar-lhes os instrumentos de participação. Isso sim, é um golpe que inviabiliza a construção da Cidade Educadora. 
Na nossa opinião a Cidade Educadora é possível. Mas para que seja possível é necessário criar condições de participação dos cidadãos. Concordo que não cabe exclusivamente ao poder político criar essas condições, mas é fundamental a sua ação. Cabe também aos cidadãos individualmente, ou organizados em grupos formais ou informais pressionarem o poder político da forma que entenderem mais justa para que a Cidade educadora aconteça. 
Amália Oliveira: (20:48) 
Uma das razões porque estou aqui é porque as mulheres hoje podem participar, o que não acontecia na antiga Grécia. 
Eu não estou de acordo quando se diz que estamos numa sociedade em que as pessoas estão isoladas e egocêntricas. Aliás, mesmo quando estamos no facebook (rede social internauta) o que queremos é partilhar. Há essa necessidade de participar, visível no facebook e não só. Note-se que eu tenho facebook, não para mim, mas para partilhar com outros. Seja no pequeno anúncio, seja nas opiniões políticas, ou sobre o que queremos na sociedade. (22:00) 
A vontade de participar existe. Está presente. O ser humano tem necessidade de viver em sociedade, não pode viver de outra forma. 
A presença dos cidadãos tem mais a ver com a nossa capacidade de ouvir do que com a sua vontade de participar porque essa existe. 
Os mecanismos de participação que a sociedade tem é que são cada vez mais autistas. (22:36) Quando dizemos que as pessoas não votam é porque não vêm refletida a sua vontade expressa. Ainda há pouco ouvia um comentário de alguém que dizia: quando votamos não sabemos no que votamos. Na maior parte das vezes isto é verdade. No caso dos chamados partidos do arco do poder as suas propostas não são transparentes. Por isso lhes é difícil a participação. Por isso as pessoas se sentem completamente vulneráveis. Por exemplo, um cidadão vai a uma reunião pública da Assembleia Municipal, fica lá até cerca das 02h da manhã esperando a oportunidade de participar e depois não vê o reflexo da sua opinião… pergunta-se então: Eu participo para quê? 
É essa busca do reflexo da opinião dos cidadãos que os partidos políticos têm que fazer. 
São os partidos políticos que têm o poder em Portugal, não são os cidadãos. Por isso são os partidos que têm que trazer os cidadãos à participação. Faz-se isso com transparência.  
As reuniões são públicas, mas têm que ser muito mais públicas do que são. Com a possibilidade dos cidadãos estarem em sua casa e puderem assistir pela net à reunião em causa. (24:00) 
A política interessa-nos, ao contrário do que algumas pessoas dizem. 
Não basta fazer uma reunião anual da Assembleia Municipal descentralizada numa freguesia. Tem de ser mais regular. 
Os instrumentos de participação têm de ser colocados à disposição do cidadão. O cidadão deve poder participar dizendo por exemplo “Eu não concordo com isto”. Podendo dizer isso a partir de sua casa, do café ou de outro lugar. 
O papel do partido político ou do órgão de poder é trazer ou buscar a reciprocidade em relação ao cidadão. Assegurar que o cidadão pode efetivamente acompanhar. Só quando isto for possível é que poderemos dizer se os cidadãos participam ou não. 
Por isso não concordo que se diga que os cidadãos estão isolados. As pessoas querem participar, mas não sabem como. As pessoas têm necessidade de participar, mas não sabem como chegar aos órgãos de poder. 
Manuel Cabeça: 
A não participação é uma forma de participação. Está tudo dito e nem vale a pena discutir a participação que queremos ou não queremos, nem vale a pena discutir. A ausência da participação é uma forma de participar e de manifestar a nossa opinião. Já houve quem defendesse abertamente, por exemplo, o voto em branco como uma forma de participação e de ostentação relativamente às situações. Pelo que acho que estas discussões em torno da participação são também uma não discussão e uma não participação. 
Segunda referência: acho que há aqui um conjunto de circunstâncias que são muitos interessantes, por exemplo a relação da política com a sociedade educadora. Já falámos da polis, já falámos da cidade, na urbanidade e na impossibilidade disto tudo. Há aqui duas situações que no meu entendimento são muito diretas. Em primeiro lugar, o senso comum, o lugar comum, a banalidade. Afinal estamos a falar de que educação? De que cidade? De que cidade educadora? Há aqui um conjunto de circunstâncias que nos levam a discutir e a debater todos os temas como se eles fossem pacíficos. Para mim, cidade pode não ser o que para vocês é cidade, educação para mim pode não ser o mesmo conceito para mim do que para vós e damos por adquirido que a cidade educadora é para nós exactamente o mesmo conceito, com a mesma definição, o mesmo entendimento. E obviamente chegamos sempre à mesma brilhante conclusão de que não é. A cidade educadora, a cidade ou a educação são conceitos que adquirem muitas das vezes conotações diversas, entendimentos muito diferentes, práticas completamente antípodas por vezes. Há aqui que debater e discutir para no final chegarmos à conclusão qual é o entendimento, a leitura, a interpretação que nós estamos a fazer dos conceitos.  
E aí, no meu entendimento, há uma situação que é maravilhosa e que já está aqui a insinuar-se devagarinho, devagarinho. São duas situações que se insinuam. Uma primeira diz respeito à dimensão política da educação e os gregos foram os primeiros - exatamente através do pedagogo -  a considerá-la, vendo a educação como uma dimensão, acima de tudo, instrumental. E o Eduardo falou e bem dos instrumentos da comunicação e aqui falo dos instrumentos da educação e da formação. E nessa circunstância é de referir que esta lógica de vermos a educação como um instrumento para qualquer coisa está hoje em dia muito presente e é uma prática que é 100 por cento urbana, ainda por cima. Está muito afecta à relação com a cidade, com a urbanidade, que nós temos ou não temos. Isto leva-me para outra relação que diz respeito exatamente à dimensão da educação no contexto da cidade e no contexto da política e que se refere acima de tudo à visão e às s dimensões que o Alas- e bem - referiu das dimensões da educação.  
Nós falamos aqui de que educação? À partida, e eu acho que estamos a dar de barato, que é da educação formal, institucional e administrativa direi eu, sendo um bocadinho provocador, da visão da coisa educativa. Pode não ser, ou não é, ou vai muito além disso, mas há que articular essas dimensões e todo o papel que é levado a desempenhar do ponto de vista da cidade, não como impossibilidade, mas como capacidade. 
Já não se coloca em termos de utopia, mas sim enquanto percurso, enquanto sentido, enquanto possibilidade, desejo, enquanto caminho a percorrer. E esta é a Cidade Educadora. Uma Cidade Educadora que acima de tudo pode definir aqui, para não me esticar muito mais, duas situações bastantes diferentes. Uma diz respeito à outorga da responsabilidade e à delegação que o próprio poder, os cidadãos ou as cidadãs, conferem a um conjunto dos seus representantes para em seu nome executarem um conjunto de políticas. Essa é uma dimensão também. Não estou aqui a dizer nem a tecer considerações sobre se é boa ou se é má, se deve ser revista, vista ou outra coisa qualquer, mas é uma outorga e já alguém disse, e melhor do que eu, que a democracia será, efetivamente, o melhor dos piores sistemas, mas efetivamente é aquele que nós temos e é aquele em nós vivemos e é aquele em que nós consignamos a alguém a nossa representação de fazer executar. Dentro desta ideia, esta capacidade de outorga e de delegação da responsabilidade leva a considerar a Cidade Educadora não como um fim em si mesmo, mas acima de tudo a participação e a lógica política ou dos políticos como elementos de agregação de vontades. E esta agregação de vontades não é impor uma vontade, não é normalizar um determinado caminho ou um determinado percurso, mas sim encontrar pontos de consenso e o percurso a fazer, que por vezes pode não agradar a todos, certamente não o fará, mas essa é a dimensão da política, é a dimensão da escolha, é a dimensão da opção, é a dimensão do percurso que fazemos. E esta é a dimensão da agregação que nós temos que ter em vista, do ponto de vista do progresso, da sustentabilidade e da coerência. Para já fico por aqui. 
Silvério Rocha-Cunha: 
Eu penso que esta primeira rodada já foi bastante esclarecedora sobre alguns pontos de vista. Eu tenho aqui que fazer o papel de advogado do diabo e vou desde já frisar duas ou três questões que eu gostava de pôr à prova. Junto dos membros aqui da mesa. 
Em primeiro lugar um parêntesis: (Eu não falei aqui no facebook, falei nos meios de comunicação. Quando se falou aqui no facebook eu achei curioso porque – claro que o facebook é uma forma de comunicação – embora eu me esteja a lembrar que há cerca de talvez 15 dias foi detida por ordem judicial uma mulher chinesa que estava sempre a comunicar no facebook e que deixou morrer o seu filho bebé por falta de alimentação. Ou seja, uma ânsia grande de comunicação do ponto de vista patológico, digamos assim. Eu não estou de modo nenhum a dizer que essa ânsia de comunicação que nós vemos no facebook tem algo de errado em si mesmo, terá em certas pessoas). 
Voltando ao que foi aqui dito, acho que a primeira rodada levantou já questões importantes e eu queria levantar duas, para depois voltar à carga com possíveis outras duas para podermos generalizar o debate.  
A Cidade Educadora levanta também um problema de definição à partida e que é este: no fundo, educa-se para quê? Bom, educa-se naturalmente para obter qualquer coisa que exprima um ideal de cidadania, um ideia precisamente de participação. Nós dizemos que, no fundo, queremos que as pessoas participem para que se crie essa sociedade educadora que será uma espécie de mecanismo (gravação interrompida) …. (…) mas ao mesmo tempo não há aqui neste ideal algo de contraditório? Ou seja: se eu tenho um modelo, esse modelo não pressupõe já cidadãos até certo ponto exemplares? Eu sei que nas intervenções houve o cuidado de toda a gente dizer: bom, nós temos que ter cuidado e temos que acicatar as pessoas e o potencial que há em cada pessoa. No fundo, cada pessoa terá dentro de si uma espécie de potencial para participar, mas a verdade é esta: se nós temos à partida e exigimos para este modelo esse ideal, então se esse ideal existe o modelo será um bocado inútil, até certo ponto.  
Esta é uma questão sobre a qual eu às vezes me ponho a pensar se quando criamos modelos como este, por exemplo da Cidade Educadora, e dizemos que a Cidade Educadora serve para ter maior participação, mas a participação habita já o fundo dos indivíduos, então para que é que o modelo serve?  Se isso, até certo ponto, já existe? Claro que eu sei que isto não é exatamente assim do ponto de vista histórico, do ponto de vista sociológico e porquê? Porque a participação, pergunto eu, não exige certos ideais, por exemplo, de igualdade?  
A pergunta que eu queria colocar é: afinal estamos a falar de um colectivo que agrupa pessoas que são necessariamente diferentes, mas até onde podem ir as diferenças para que possa haver um colectivo? Eu estou-me a recordar – permita-se-me agora ser eu a provocar para animar a ideia – de que há uns meses, talvez em 2010, há mais de um ano, quando começou a crise o conhecido milionário dono do Pingo Doce, que é o 2º ou 3º homem mais rico de Portugal, disse que era importante nós portugueses, para superarmos a crise, darmos todos as mãos. E eu pus-me assim a pensar: se ele for o terceiro homem mais rico de Portugal vou pô-lo a dar a mão ao terceiro homem mais pobre de Portugal e se, porventura, eles dessem a mão o que é que eles tinham para dizer um ao outro? Ou seja, não é preciso haver mínimos para que, de facto, a Cidade Educadora tenha êxito? Não é preciso que haja um requisito prévio para a Cidade Educadora possa existir?  
Esta é uma questão que eu gostava de colocar e julgo que foi levantado aqui um problema que eu acho que é fundamental que é o de saber ou não se o modelo de representação, que é o modelo-base do nosso sistema político, seja ele nacional seja ele local, até inclusivamente europeu, está esgotado. Houve aqui pelo menos um participante que afirmou claramente que estava esgotado. Julgo que todos os outros, no fundo, falaram disso um pouco quando falam das tribos como um colectivo. Gostaria de saber se acham que a tribalização da vida urbana cria coletivos participativos, mas a questão que eu colocava para já é:  
Ponto1: A sociedade educadora é um modelo – não será um modelo demasiado abstracto?  
Ponto 2: Baseado na representação, será que o modelo da representação está de facto esgotado? É que se está esgotado teremos que arranjar um outro modelo e muitos dizem o modelo da participação. Mas qual é o modelo da participação em termos concretos? É assembleias de cidadãos? De bairro? Da cidade toda? Por freguesias, mas em termos de democracia directa? É que se nós achamos que o modelo de representação está esgotado – eu penso que ele em certos aspectos está efectivamente esgotado – então temos que arranjar uma alternativa que seja tão complexa e tão bem afinada como é o modelo de representação, porque apesar de tudo a representação demorou uns 200 anos a ser posta em prática, a ser posta em execução, com erros, com tentativas. Há muitas modalidades de representação. Pergunto: não haverá muitas modalidades de participação? Então quais seriam as alternativas? Haverá de facto alternativas? Porque quando por exemplo foi dito aqui que muitas vezes os cidadãos querem participar mas estão saturados. É um direito estarem saturados? Ou não é um direito estarem saturados? É um direito exprimirem inclusive a sua alienação como entendem?  Ou será que não há direito a que sejamos alienados? É uma questão que rompe com a questão do modelo, etc., mas começava por esta grande questão: se temos o modelo esgotado qual é a alternativa ao mesmo nível e com a mesma complexidade e se, de facto, o modelo de Cidade Educadora é ou não é um modelo um bocado abstracto – eu insisto neste ponto – num mundo em que nós temos todos consciência de que já não estamos sozinhos e de que estamos ao alcance de um dedo e duma tecla, e que com isso podemos operar comunicação doutro tipo, eventualmente mais interessante, com a Nova Zelândia, por exemplo? 
Nuno Alas: (43:14) 
Se efetivamente é um modelo abstrato poderá ter vantagens precisamente em sê-lo. Uma formalização excessiva duma cidade educadora feita pelo poder político por norma restringe e inibe a participação e inibe o valor que pode ser criado e gerado a partir dessas mesmas intervenções. Portanto, sendo abstrato talvez seja bom que assim seja. Naturalmente que os órgãos políticos e os partidos tendem perante a sociedade e perante as exigências que lhes são colocadas a formatar e a encontrar segmentações e prateleiras específicas capazes de caracterizarem o que é uma sociedade educadora. Mas a sociedade educadora e o abstrato que nela existe, é precisamente a vivência e a riqueza que pode vir da participação de todos. Sendo um modelo abstrato não vale a pena formatá-lo porque no dia a seguir pode estar completamente obsoleto e mais vale estarmos preparados quase para as teorias do caos do que estarmos em planeamentos muito concretos e muito detalhados. Partilhamos da opinião de que acima de tudo os modelos têm que ser flexíveis para estarem preparados para responderem às necessidades. Efetivamente esta é uma posição que nós colocamos não só ao nível de Évora Cidade Educadora, mas em toda a participação que a sociedade pode ter na nossa vida. Entendemos que os partidos políticos e os órgãos autárquicos ou nacionais têm também um grande papel supletivo daquilo que cabe às pessoas, às organizações e à sociedade fazer. E estarmos politicamente a restringir e a condicionar aquilo que as pessoas sabem melhor e querem criar, naturalmente que poderemos estar a colocar um garrote e a não permitir que estes movimentos cresçam e se desenvolvam. Portanto, ser abstrato hoje, ou ser formal hoje, não significa que amanhã não seja abstrato, portanto, os modelos devem é estar preparado e os participantes e os responsáveis políticos para a necessidade de uma grande abertura, de perceber as tendências da sociedade e de olhar para estes modelos não como sistemas fechados. 
Eduardo Luciano
Antes de mais nada, queria aqui apenas responder à provocação que o Manuel Cabeça lançou de não participar como forma de participar. É claro que é. Não participar é uma forma de participar e o jeito que isso dá à classe dominante. O jeito que dá essa forma de não participação. É exatamente o mesmo jeito que dava, antes de 1974, quando o vizinho que morava em frente dizia “a minha política é o trabalho, não me meto em nada”, exceto quando denunciava o vizinho da frente, porque aí, pronto, era uma questão de autodefesa. A não participação como forma de participar dá um jeitão a quem detém o poder, sempre, na minha opinião obviamente. 
Sobre a questão dos requisitos prévios para a Cidade Educadora. Obviamente que sendo eu comunista e defendendo que a sociedade se divide em classes antagónicas e em luta, não posso aqui afirmar que os cidadãos estão todos num plano de igualdade, participam num plano de igualdade na construção da Cidade Educadora, isso seria um contra -senso com aquilo que defendo no dia-a-dia. Mas há requisitos prévios e esses requisitos prévios são a realização duma democracia efetiva. É aquilo que no programa do meu partido nós entendemos como a democracia avançada que é a democracia política, social, económica e cultural. Isto são os requisitos prévios. Partir para a construção da Cidade Educadora apenas e só com o primeiro requisito cumprido - que é a democracia política e a possibilidade de estarmos aqui todos a debater este e qualquer outro tema-, é insuficiente, porque cada classe social que intervém na construção da sociedade educadora tem um peso diferente e diferenciado, como é óbvio. Portanto, estes são os requisitos prévios. É a construção duma democracia efetiva. Uma democracia que seja política, económica, social e cultural. 
Quanto ao modelo de representação esgotado: Eu não diria que o modelo de representação está esgotado, mas que os partidos do tal arco do poder têm vindo nos últimos tempos a empurrar-nos para esgotarem cada vez mais o sistema representativo, isso têm. Não é por acaso que se lançam as achas para menos deputados na Assembleia da República. Ora isso diminui a representação. Eu também sou um defensor de menos deputados na Assembleia da República, (dos outros partidos, claro), mas acho que devem lá estra os 230. Acho que este ataque à democracia representativa vem exatamente da parte daqueles que fazem dela uma bandeira, isso é que é interessante, porque depois, como não há alternativa, porque como é o pior sistema tirando todos os outros, então não se pode mexer em mais nada. A democracia representativa não está esgotada, mas temos tarefas enormes pela frente para evitar que os tais partidos do arco do poder se encarreguem de a esgotar. 
Mas a democracia representativa não chega. É evidente que não chega. Quando nós elegemos deputados para a Assembleia da República, nós não elegemos governos, elegemos deputados, e quando o fazemos votamos em programas. Ora, os programas que as sucessivas maiorias vão aplicando – atrevo-me eu a dizer – tem muito pouco a ver com aquilo que anunciaram nas campanhas eleitorais. Isto significa que estão a apresentar aos seus eleitores um projecto de contrato que, não só não pretendem cumprir, como até pretendem apagar algumas cláusulas para substituir por outras. Isto também mata a democracia representativa. Se não houver uma componente de participação, se não houver uma componente de democracia participativa que corrija estes entorses que são impostos à democracia representativa, então sim, este tal bloco central do arco do poder arrisca-se a acabar com a democracia representativa e depois vem aí um salvador da pátria qualquer que nos coloca numa situação muito pior em termos de liberdades, em termos de direitos, em termos de garantias, em relação ao que temos hoje.  
Portanto, a democracia representativa não está esgotada, mas ela tem que ser aprofundada com a participação, tem que ser aprofundada com a democracia participativa. Os eleitos no município, os vereadores, o presidente da Câmara, foram eleitos, estão legitimados pelo voto popular, mas isso não pode significar que não questionem as populações, que não as oiçam, na realização deste, daquele ou da outra obra, quando há obra; que não as questionem sobre projetos futuros, que não discutam com eles. O voto não pode ser um cheque em branco passado a quem vai assumir o poder. Não pode ser. Esta componente participativa é essencial e as comunidades locais, as populações encontram sempre formas de participar, como já aconteceu no passado quando se discutia na rua com as populações para que lado ficava virada a porta do jardim infantil que se estava a construir. E isto era democracia participativa. Como aconteceu na discussão de Planos Directores Municipais com salas cheias e com reuniões descentralizadas, como já aconteceu noutros tempos, noutras alturas, como vai acontecendo noutros sítios e como vai acontecendo também em Évora quando nos predispomos a isso. 
A questão do conceito ser demasiado abstracto. Felizmente que é abstracto porque a pior coisa que poderia acontecer era uns pensadores, por muito ilustres que sejam, fechados em qualquer gabinete, definirem a regra e esquadro que era uma Cidade Educadora. A Cidade Educadora é construída pela participação das populações e são elas que a constroem dessa forma. Sem participação, com limites à participação, com entorses na participação, sem transparência, obviamente que não passa de um conceito abstracto. Évora aderiu à rede no ano 2000, teve um período de preparação e aderiu nessa altura. Passaram 12 anos, e se eu for por esta cidade fora perguntar a qualquer um dos cidadãos que aí está o que é que ele entende como Cidade Educadora ou se sabe que Évora faz parte duma rede de cidades educadoras, eu arrisco-me a não encontrar um que saiba, e se encontrar foi algum de nós que saiu daqui, provavelmente. Durante 12 anos esta transmissão lá para fora do que é a Cidade Educadora, do que é que nós estamos a fazer para transformar Évora numa Cidade Educadora é zero porque, de facto, não há o reconhecimento daqueles que devem construir a Cidade Educadora sequer que o conceito existe. 

Amália Oliveira: 
Eu iria começar pelo facto de realmente desta ser uma atividade abstrata, vamos pôr assim. Onde é que começa para mim a Cidade Educadora? Começa exatamente na educação. E quando a educação que nós vemos no dia-a-dia nas escolas, que é a tal educação formal, não é feita para a participação, nós nunca mais poderemos exigir participação da parte dos cidadãos.  
Têm que ser inicialmente as crianças a serem chamadas à participação e nós vivemos, infelizmente, numa sociedade que estimula a não participação. A não participação para mim não é minimamente uma forma de participação. É uma coisa que é estimulada no dia-a-dia pela nossa sociedade, pelos órgãos de poder, pelos media, que estão na mão dos órgãos de poder, exatamente para que nós não participemos, para que ninguém participe, para que as pessoas sintam que esta participação não tem reflexos nenhum. E é isso que acontece no dia-a-dia. Logo, se isto existe no dia-a-dia, se isto é estimulado no dia-a-dia, não pode ser encarado nunca como uma forma de participação. Se eu estou a obrigar uma pessoa a não participar ela não tem a mínima hipótese de dizer: mas eu quero participar. Todos os dias estamos a dizer: não participe, não participe, não participe… por isso para mim não é uma forma de participação. 
Depois, aquilo que nós queremos da Cidade Educadora passa pelo que é que as populações querem da Cidade Educadora? E ao estimularmos a participação seja de quem for, vamos então idealizar a nossa Cidade Educadora. E o que pode ser hoje uma Cidade Educadora com estas pessoas que aqui estão, com aqueles órgãos, com os agentes culturais, os agentes socioeconómicos, os agentes que existem nesta cidade, o que pode ser hoje uma cidade educadora não será certamente aquilo que será amanhã. E isto tem a ver com a evolução em si da coisa. Tem a ver com o facto da nossa cidade, da nossa sociedade ter que obrigatoriamente que evoluir. Por mais que nós queiramos, aquilo que nós estipularmos hoje nunca será encarado no dia de amanhã. Por isso é que é abstrato e por isso também aquilo que nós decidirmos hoje para a cidade de Évora ou amanhã mesmo que nós quiséssemos nunca poderia ser imposto a qualquer outra cidade, seja ela educadora ou não. Eu considero as cidades quase como um ser vivo e por mais que eu queira (sou bióloga e estudo seres vivos) dizer como eles funcionam é impossível. Eles funcionam como eles funcionam e assim funciona a cidade. Esta cidade é um ser vivo e vai funcionar sempre, independentemente da maneira que nós dissermos que ela tem que funcionar deste ou daquele modo e independentemente de qualquer outra cidade. Por isso o conceito de Cidade Educadora tem que ser um conceito abstrato, não pode ser nunca um conceito formal porque senão a cidade não seria formada pro pessoas, seria uma máquina que ali estrai e que todos os dias seria programada para fazer determinadas tarefas. Mas nós não somos assim, apesar de algumas pessoas e alguns sistemas políticos o queiram. 

Manuel Cabeça: 
Há aqui duas questões que, em jeito de provocação, eu lanço para a mesa. Primeiro, do ponto de vista da educação. Neste momento está a ser feito o mais vilipendioso ataque à educação e ao sistema educativo de que há memória desde 1942, era Eduardo Cordeiro ministro da Educação de então. Eu aposto com quem quiser que não vamos ter uma manifestação em Lisboa nem em lado nenhum com 120 mil professores. Mais: aposto que neste momento e até Maio do ano que vem (2013) eu não vou ter nenhuma manifestação em Lisboa nem em lado nenhum com mais de 30 mil professores. Aposto com quem quiser. Serve isto para vermos que efetivamente as estruturas de participação e de poder não estão nas mãos de alguns. Ou, por outra, estarão efetivamente nas mãos de alguns só que não serão daqueles mais óbvios. E esta é manifestamente a minha provocação em termos introdutórios.  
Uma outra referência que faço e que acho que é importante. Eu próprio, enquanto militante do PS, fiz essa acusação que o Eduardo referenciou e muitíssimo bem, de que o slogan de Cidade Educadora não tem sido usado com o devido peso e a devida referência ao que do meu ponto de vista tem sido feito e tem sido feita muita coisa, e efetivamente não há o conhecimento nem o reconhecimento daquilo que tem sido feito. Enfim, há excessos e se eventualmente existisse aqui uma manifestação e uma divulgação, digo excessiva, talvez fossemos acusados de propagandísticos. Não sei. O partido socialista tem sempre a circunstância de ser responsável por ter ou por não ter cão. É um facto que pertence ao arco do poder, certo, e de estarmos entalados entre diferentes perspetivas.  
Entrando nas questões que foram colocadas para discussão, há uma primeira que os meus colegas deixaram passar que é o educar para quê? 
E esta é uma grande questão que eu acho que é fundamental nos tempos que correm e enquanto Cidade Educadora e eu acho que na própria questão está um bocado da resposta. Ou seja, a educação e a cidade tendem para a harmonização, para a uniformização, para a socialização, por assim dizer, no sentido de responder à diferença. A educação é isso mesmo, é harmonizar a escola, que só existia nos aglomerados urbanos com alguma dimensão, e era para esse efeito, era a de harmonizar, uniformizar e socializar, homogeneizando e criando um caldinho comum, no sentido de criar e lhes identificar uma língua e uma cultura comum que hoje, eventualmente, não será assim tão linear. Mas é exatamente no sentido de respeitar a diferença, o que é uma coisa engraçada e uma das contradições do sistema educativo: integrar para respeitar a diferença. Dentro desta lógica, se há o esgotamento dos modelos, ao tempo que andamos a discutir os modelos, porventura chegaremos à brilhante conclusão de que eles não estão esgotados. Eles têm é temas inesgotáveis para nós continuarmos a discutir e a debater. 
Nesse sentido, concordo com a perspetiva de que há sempre possibilidades de melhorar, de corrigir, de retificar, de aprofundar, de realçar circunstâncias e aí não tenho dúvidas de que um dos fatores de aprimoramento da participação e da democracia é exatamente o debate, a discussão, o pluralismo, é aceitarmos a diferença, mas é aceitarmos essa diferença pela diferença, não é aceitarmos a diferença querendo impor determinadas posições ou determinados ideais. Isso aí é que manifestamente estamos a querer ultrapassar e fazer vingar determinadas posições que terão eventualmente outras conotações e outros ideais. 
Em termos de modelos de abstração: Inevitavelmente fui ler o que está no site e no blogue da Cidade Educadora, e o que está lá é que é exatamente um percurso e não é um modelo, nem um projeto, é um percurso. Enquanto percurso sabemos para onde queremos ir, esperemos e façamos nós votos para que saibamos para onde queremos ir e eventualmente o que podemos é equacionar no meio desse percurso alternativas, auto -estradas, azinhagas, outros meios. 
Última referência que faço: Acho que do ponto de vista da Cidade Educadora e acho que enquanto professor sou obrigado a fazê-lo, é não restringirmos a Cidade Educadora, primeiro, a uma dimensão excessivamente política, ou pelo menos político-partidária.  
Segundo, não restringirmos esta Cidade Educadora à sua dimensão de participação. Ela tem outras dimensões que não apenas a da participação. Obviamente que há umas conforme as circunstâncias e enquanto modelo – os meus antecessores disseram-no e muito bem – hoje o modelo está consensualizado, amanhã ele poderá ser colocado em causa e virado de pantanas. E a lógica da participação é exatamente essa. Hoje debatemo-la, discutimo-la e amanhã estamos a equacionar outras lógicas de participação e estamos a olhar para a mesma coisa de maneiras diferentes.  
Nessa perspetiva pergunto, e para terminar: Educar para quê ?  E termino exatamente como procurei começar – do ponto de vista da agregação de vontades e de opiniões. E esta agregação não pode significar de maneira nenhuma nem unanimismo nem populismo. Este é o grande desiderato da política e da educação. É sermos capazes de dosear e criar um sentido crítico no sentido de podermos discutir e aceitar a discussão. E aceitar que no meio da participação e do debate nem sempre estamos concordantes. E isso é outra forma de educação. 
Silvério Rocha- Cunha: 
É altura da discussão se alargar, no entanto eu queria fazer uma pergunta para o público e para os membros da mesa que eu tinha aqui guardada para meio do debate e acho que agora está na altura, já que o público se vai pronunciar.  
E a pergunta é esta: quando se fala nestes modelos, de Cidade Educadora, de sociedade, etc., fala-se muito de modelos, de pessoas, de cidadania, o cidadão, etc. E a minha pergunta é esta: O género faz diferença ou não? Porque habitualmente é muito frequente ver que os modelos não fazem alusão ao género, tratam de indivíduos, de pessoas, de seres humanos. E a pergunta é esta: faz diferença serem homem e mulheres? Só homens? Só mulheres? Mias mulheres que homens? Mias homens que mulheres? Essa é uma questão que acho que valia a pena que fosse também discutida por todos.  
(1.05.33) 
Florbela Fernandes (1ª intervenção dos participantes fora da mesa motivadora do debate) 
 Cidadã eborense, técnica superior na Câmara de Évora na área de trabalho social, Presidente das mulheres Socialistas de Évora. 
Este tema é-me caro. Eu encaro este modelo de Cidade Educadora, mesmo por ser abstrato como resposta à questão colocada inicialmente, do isolamento, da necessidade de participar e não só sectorialmente. É um modelo que tenta combater a tendência individualista e sectorial. A participação que vai havendo é muito fragmentada e vai-se afastando do objetivo coletivo da polis. O modelo da Cidade Educadora sustenta-se em valores de tal forma latos que o coletivo tem tendência a aderir, como sejam a igualdade, a democracia, a identidade, o direito á participação…  
O sistema político de representatividade está de facto em crise, apesar do cidadão gostar de participar. Como podemos resolver este problema? O facto da não participação como forma de participação deve preocupar-nos. A Amália tem razão quando aponta a falta de reflexo dessa participação. Esse é de facto uma das razões da crise da democracia representativa. Ao nível do poder local esse reflexo é mais fácil de fazer, assim os eleitos estejam disponíveis para isso. Já existem instrumentos a nível local de participação onde é possível ir construindo a Cidade Educadora há que fazê-los funcionar e colocar aí o problema da Cidade Educadora.  Falo-vos dos Conselhos de Escola, do Conselho Local de Ação Social, do Conselho Municipal de Educação, entre outros. 
Quanto à questão do género: Eu costumo dizer que não sou a favor das quotas, mas gosto efetivamente do que as quotas fazem. Não deveriam ser necessárias, mas são. São a forma de garantir que as mulheres participam 
Carlos Júlio (2ª intervenção) 
Jornalista na Rádio TSF, cidadão residente em Évora 
Estou incomodado com este debate. Eu não voto, mas participo. Estou contente por não votar nestes políticos. Que políticas é que os políticos defendem para a cidade? Não se tratam de discursos no vazio. Deveriam dizer quais são as políticas para a Cidade Educadora. Parece-me que ou os políticos se reposicionam, ou daqui a pouco os 20% que ainda votam em vós, vão deixar de o fazer. Vão daqui a um ano ter eleições autárquicas, o que vão pôr nos programas eleitorais sobre estas questões? Estou chocado com a vossa incompetência na área das propostas políticas que é a área dos políticos. 

Joaquim Carrapato (3ª intervenção) 
 Eborense, bancário aposentado, fotógrafo, assíduo neste ciclo de debates 
Não sou académico. O que me move para estar aqui é aprender e transmitir o que penso como cidadão comum. À pergunta “os políticos eborenses defendem a construção de Évora como Cidade Educadora?   A resposta só pode ser sim.  Mas o que é isso de Cidade Educadora? 
Como cidadão comum choca-me ver grossos cabos pretos visíveis nas ruas, sou sensível à imagem da cidade. Outras pessoas serão sensíveis a outros aspetos. Educar para quê? São os cidadãos que devem dizer o que querem que seja a Cidade. E as cidades alteram-se, mesmo que não se faça nada.   
De que forma é que os partidos políticos representados na A.M. ou na CME podem impor as suas políticas? Não podem porque são contrariados pelos cidadãos organizados ou não. 
O género faz a diferença. A mulher teve até hoje muito pouca voz ativa sobre esta cidade e outras. Tudo o que foi arquitetura, cultura entre outras áreas. A mulher pode fazer a tal diferença que falta. 
Ana Botto (7ª intervenção) 
(Jornalista na empresa Cofina, cidadã eborense) 
Gostaria de colocar duas questões às 
1.     O que é que os partidos fazem para a Cidade Educadora? 
2.     O que é que os partidos fazem para promover a participação? São ou não responsáveis pela falta de participação 
José Russo (8ª intervenção) 
(Ator, director do CENDREV, membro da Assembleia Municipal de Évora eleito pela CDU) 
Vivemos numa sociedade de exclusão que deve ter como inverso a participação.  
Eu voto e parece-me este instrumento muito valioso. Mesmo que seja em branco, mas não podemos desvalorizá-lo. 
A Cidade Educadora é uma construção. Evolui, não é estática. Evolui em função da cidade onde se está. A responsabilidade dos cidadãos não é comparável à responsabilidade dos políticos. Os políticos devem servir e não servir-se, e é isso que faz toda a diferença.  Para mim, a Cidade Educadora é viva, pró -ativa, e tem de ter espaços de encontro. Encontro entre os agentes responsáveis pela vida da cidade, que junte os vários agentes que garantem essa vida sejam económicos, culturais, da área da educação. Do meu ponto de visto isso não tem acontecido. Os políticos não têm sabido juntar as partes e daí resultam prejuízos. 
A Cidade Educadora também é cidade de projetos, cidades de cultura. A Cidade de Évora fechou as portas as portas a essas dimensões. Veja-se por exemplo Guimarães cidade da Cultura. Évora que estava nesse trajeto deixou-se ficar para trás. 

Miguel Sampaio (9ª intervenção) 
Livreiro, candidato à Presidência da Câmara de Évora pelo Bloco de Esquerda no mandato 2009-2013 
O que é uma autarquia de esquerda? 
Se estivermos a falar de cidade, os programas de quem governa têm que ser exequíveis. É básico exigir que os programas de governação sejam aplicados. Não se pode confundir programas eleitorais com banha da cobra. Isso é uma condição de base.  A transparência é, por isso, a base. Já que há tanta diversidade na cidade é necessário integrá-la sendo a transparência a condição de base. Cada um de nós tem uma ideia de cidade. Cabe aos políticos conjugar essas ideias diferentes das quais deve resultar a cidade. A democracia representativa não está esgotada mas tem de ser revista e aprofundada.  

José Alexandre Policarpo (01:49: 20) (10ª intervenção) 
Advogado, eborense, dirigente do PSD local 

Confesso que desconhecia em absoluto o conceito de Cidade Educadora e que Évora integrava uma rede de Cidades Educadoras. Gostaria de fazer referência a dois aspetos: 
Primeiro ouvi aqui falar amiúde de direitos. Deveríamos evocar mais de deveres. Os deveres para com a cidade, para com a cidadania, para com os nossos concidadãos. Mais do que os direitos quero deixar aqui o enfoque na questão dos deveres.  
Para chegar ao Sr. jornalista que disse que estes políticos não têm nada para apresentar, gostaria de lhe dizer que em democracia há o direito de não votar. Pergunto se não há o dever de votar, entre outros deveres?  Pergunto se não nos deveríamos concentrar sobre os deveres em vez dos direitos dos cidadãos?  
Neste momento em que os recursos são parcos, e porque sou um bocado descrente e julgo que somos responsáveis, acho que é intelectualmente desonesto dizer que não temos responsabilidade. Acho que é mais adequado à prossecução dos nossos fins que é vivermos em coletividade, atribuirmo-nos deveres. Para que a edilidade se formate ao serviço dos munícipes e das populações há que tomar medidas. 
É intelectualmente desonesto dizer que não somos responsáveis. Somos todos responsáveis, proporcionalmente. Há uma geração que nos trouxe até aqui. É uma geração de vacas gordas, mas agora o ajuste vai custar.   
Em vez de falarmos dos professores, dos 130 mil que existem como ouvi aqui falar, gostaria de ouvir falar dos alunos, de ouvir sugestões para políticas educativas. São os alunos que são o futuro. Eu só ouço aqui falar de direitos, não ouço falar de deveres. Os que têm maior conhecimento devem facultá-lo e transmiti-lo. Temos o dever de criara maiores oportunidades. As sociedades crescem se tivermos pessoas que contribuam. Com esforço, com mérito empenho esforço e coerência.  
No caso de Évora os anos passam, definham, não temos massa crítica, as superestruturas cada vez estão mais esgotadas. Aproximam-se eleições e, nós os políticos, não podemos prometer o céu a todos, mas temos de dizer o que vamos fazer. Não é com demagogia, mas com seriedade, percebendo o que é ser cidadão. 

Raul Rasga (4ª intervenção) 
 Cidadão eborense, Professor do ensino profissional na Fundação Alentejo/EPRAL 

Subscrevo as questões apontadas pelo Carlos Júlio. 
No discurso que aqui ouvimos faltam coisas concretas. Tenho horror a coisas abstratas. 
Na dimensão técnica da Cidade educadora, é preciso criar instrumentos, suportados por instituições que contribuam para a Cidade Educadora.  
A escola tem que ensinar menos coisas. Há que redefinir o perímetro da escola (a expressão não é minha é do Prof. Nóvoa). Mas onde estão as outras instituições, públicas, privadas, coletivas, outras? Onde está o serviço educativo do museu de Évora? Da Biblioteca Pública de Évora? Somos a única capital de distrito sem rede pública de (...não percetível)
Na dimensão política a população tem de pressionar. As organizações dos cidadãos têm que pressionar seja qual for a sua cor política pela qual se mobilizem, organizados formalmente ou informalmente, mas que façam as mudanças. 
O modelo de representação tem pouco mais 200 anos. Não me parece que esteja esgotado, se calhar os seus atores políticos é que não têm sabido interpretá-lo. Calma, não vamos mandar fora o bebé com a água do banho. 

Bernardina Sebastião (5ª intervenção) 
Licenciada em História, técnica na Câmara Municipal de Évora, cidadã residente em Évora 

Temos em Portugal um sistema democrático com 38 anos. Deve preocupar-nos que hoje só 39% dos cidadãos participam. Isto confirma que o sistema está de facto esgotado. 
Preocupa-me a pouca participação dos cidadãos. O sistema representativo está esgotado. Porque poucos votam. Fomos construindo uma sociedade que vai excluindo cada vez mais os cidadãos. As sociedades atuais mudaram muito e os partidos políticos têm de tomar isto em conta. Estarão a considerar isso? O sistema económico sobrepôs-se ao sistema político. As pessoas não participam. Constata-se que não estão contentes. Há degradação no sistema democrático. Como é que se governa a cidade sem dinheiro? A evolução deste sistema democrático tem que ser fortemente questionada. As pessoas estão a perder muita qualidade de vida. Pessoalmente preocupo-me com a governação atual do país e das cidades. No atual estado, a governação é difícil a qualquer partido político. O alheamento dos cidadãos tem a ver com o medo de perderem ainda mais do que o que já perderam. 
Quanto ao género, é importante responder. As mulheres participam. Participam no mercado do trabalho, mas não participam na política. As mulheres tiveram acesso ao ensino e a outros espaços. Só não participam devido a condicionamentos sociais. A Educação pode contribuir para que as pessoas sejam mais justas e que continuem a defender a utopia que vale a pena.  

Vicente Sá (6ª intervenção) 
(ator, residente em Évora, cidadão assíduo neste ciclo de debates ) 

 Eu sou apenas um cidadão com uma opinião. 
A Cidade Educadora pressupõe participação. Participação pressupõe educação formal e informal, educação em sentido lato. A educação familiar, de bairro, de rua. A educação feita nas associações, nas instituições da cidade já aqui referidas. A quem é que estes cidadãos organizados em pequenos ou maiores grupos de interesses se devem dirigir? 
Aos partidos políticos. Os partidos políticos são estruturas herméticas que não deixam entrar opiniões fora do seu esquema. Estão a orientar-se para interesses muito específicos, como por exemplo os interesses económicos como já aqui foi referido. Os partidos políticos correspondem hoje às ideologias políticas que os seus nomes preconizam? Só faço perguntas porque me parece que as respostas são evidentes. 
Quanto à democracia representativa eu, cidadão também participo. Peço aos políticos que aqui estão que transmitam às suas estruturas o que aqui ouviram. Não, não podemos reduzir a Escola. Fora da Escola as instituições educadoras têm de ser impulsionadas pelos políticos. 
 O voto em branco é uma forma de participação. É uma manifestação clara. Deveriam corresponder a lugares vazios nos órgãos políticos. 
Relativamente à participação das mulheres, sim, faz claramente a diferença.  A cabeça dos homens e a das mulheres pensam de maneiras diferentes. Só do conjunto das duas participações (homens e mulheres) pode resultar algo. 

Luís Garcia (01:55:10) (11ª intervenção) 
(cidadão eborense, sociólogo, técnico da Câmara Municipal, militante da CDU) 

O Prof. Silvério começou por enunciar o problema exatamente ao contrário do que eu enunciaria. Reconheço-lhe por isso o mérito de saber motivar a discussão. Os fatores que levam à morte da sociedade têm a ver com o individualismo. A Cidade Educadora é no fundo uma cidade de cultura, uma cidade como espaço de comunicação. 
Já me senti muito bem na Praça do Giraldo onde as pessoas se encontravam. Trocavam opiniões, falavam entre si. 
Aliás se lerem a newsletter que apoia o debate verão que o alcaide (…) 

Clara Grácio (12ª intervenção) 
(cidadã residente em Évora, professora do departamento de Matemática da Universidade de Évora, militante da CDU) 

Eu gostaria de dar um exemplo concreto. A disciplina de Físico Química na escola secundária até há pouco tinha dois professores o que permitia separar a parte prática da parte teórica. 
Temos que dar hipóteses a que as pessoas participem. O que é dar a hipótese?   
Posso perguntar a um cidadão: Gosta de ópera?  e ele pode responder-me: ópera? O que é isso? se não conheço, se numa me foi oferecida a hipótese eu não poderei pronunciar-me, ou participar? 
 Resumindo, uma Cidade Educadora assenta na participação. E para que isso seja possível tem de haver espaços de participação. Não é por acaso que a participação acontece. Tem de ser induzida. É claro que pôr à discussão uma decisão a tomar num órgão de governação da cidade, dá muito trabalho e às vezes não dá jeito nenhum mas de certeza que a famosa racionalização dos custos (…) 

Silvério Rocha-Cunha: (02:04:45) 

Tivemos aqui intervenções radicais, no sentido de ir à raiz das coisas e diversas. 
Houve aqui um participante que falou muito da dicotomia de direitos e deveres. Eu como jurista sou muito sensível a essa questão. Mas os direitos nunca foram dados sempre foram …. 
Nova ronda por todos os representantes dos partidos políticos e encerramento pelo Prof. Silvério. 
-Fim do debate nº6 -