Um blogue de apoio à construção de uma cultura de Cidade Educadora nas Cidades da Rede Portuguesa de Cidades Educadoras

domingo, 5 de fevereiro de 2012

Impressões dum debate ao cair da tarde, em Évora


Ontem estive presente num debate sobre " Habitar a cidade, construir o espaço público", no Salão Condestável em Évora. Uma das coisas que se disseram lá é que o facebook é um local de exibicionismo pessoal, onde nos mostramos (às vezes através de coisas que não têm importância nenhuma para os outros). 
Alguém chegou a dizer: por um lado tem piada saber que a Presidente da Junta de Freguesia de ...está de manhã a fazer panquecas! Certo é e penso que todos os que lá estivemos concordamos que o facebook, a internet ajuda a pessoas, que não se encontrariam de outras formas, a aderirem a debates como o de ontem. 
Foi um debate que derivou para aquilo que eu pensava ser uma paranóia minha e para a resolução da qual eu até já estava a pensar fazer psicanálise. Na verdade Évora tem muita muralha, os eborenses e os que cá estão por empréstimo (como eu) sentem-se aprisionados. Os resquícios da Idade Média, da Inquisição, a forte presença real nesta cidade, mormente entre os sécs. XVI e XVIII, escavaram no eborense uma forma de estar medrosa face aos outros, ao suposto poder dos outros...todos temos medo de dizer o que pensamos, todos tememos ter opinião. 
Não se pode ter opinião em Évora! Se se é de esquerda é porque se é de esquerda, se se é da direita é porque se é da direita, se se é católico (logo opus dei) é porque se é católico...existe uma censura em Évora. Uma censura colectiva, que faz temermos uns aos outros. Por isso só singra nesta cidade quem é low profile (e que seja quase imperceptível), ou os medianos. Os que valem, mal põem a cabeça de fora cortam-lhes " as vazas", ostracizam-nos como se fossem uma praga contra a letargia eborense. Sim, letargia...
Todos os fins de semana ando à procura de oferta cultural em Évora. Tenho filhos, gostava de oferecer-lhes um pouco de cultura nesta cidade, mas não é possível. Os eventos não são devidamente publicitados, a Universidade deveria ter um papel educativo nesta cidade está completamente desligada da cidade, como se fora um casulo. As conferências que promove são para os "da casa". Ora assim não se vai a lado nenhum. Depois não existe máxima crítica nesta urbe. Os autóctones funcionam como clãs avessos à inovação. Vão em rebanhos a determinados eventos, todos muito juntinhos como se se protegessem com uma muralha de altivez dos "outros" que têm obrigação de se sentir a mais. 
Não sou de Évora. Penso que poucas são as cidades com as possibilidades de Évora e nenhuma como ela se dá ao luxo de desperdiçar o seu enorme potencial. Ontem todos concordaram que em Évora não se consegue fazer nada, que não se consegue progredir porque nós não gostamos uns dos outros. Todos temos medo uns dos outros. Todos temos medo de emitir as nossas opiniões pessoais. Todos nos calamos pois quando falamos:zás, estamos aniquilados profissionalmente, a nível das relações interpessoais, a nível sabe-se lá do quê!!!!!
Ontem fui para o debate pensando que se iria debater a cidade. Afinal debateram-se as pessoas, os medos, as frustrações, a fatalidade de se ser eborense. Foi uma psicanálise colectiva, um confronto com a triste realidade...não deixei de constatar, porém, que a contradição de ontem é que havia "tribos" várias amuralhadas a falarem das tribos e das muralhas...

Marta Nunes Ferreira - Dia 27 de Janeiro de 2012 (facebook)

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