| Foto de Joaquim Carrapato. Aspecto do debate no café Condestável |
Na quinta-feira aconteceu mais um debate sobre o tema HABITAR A CIDADE. CONSTRUIR O ESPAÇO PÚBLICO. Desta vez o espaço foi, ou melhor, poderia ter sido dos jovens criadores.
Na realidade o Pedro Pinto (músico e produtor) provocou e moderou o debate. As preocupações, as aspirações, os sonhos transmitidos pelo Daniel Catarino (cantautor), pela Joana Dias (designer), pelo Márcio Pereira (performer), e pela Anarita Rodrigues (actriz) foram a pedra de toque que marcou aquele espaço de reflexão. Por ali passou a cidadania. Esta passagem poderia ter sido muito mais viva, muito mais controversa, muito mais rica e partilhada. Mas na verdade quem estava para debater não foram propriamente jovens criadores, jovens artistas, nem jovens produtores ou programadores. Esses não apareceram (com uma ou outra excepção).
Fala-se muito da relação, ou da negação de relação, entre política e cultura. Este espaço de debate, claramente fora de tutelas partidárias, torna muita clara a relação entre a política, entendida como participação cidadã, e a cultura, a arte e … tudo o resto que nos distingue dos outros viventes!
Este debate foi atravessado por um sentimento que começa a ganhar proporções dramáticas nas nossas vidas, o sentimento da culpa. Um dos elementos ideológicos estruturante da crise decorre da reprodução da culpa, ou da culpa partilhada: “estamos assim porque vivemos acima das nossas possibilidades”, “se formos mais empreendedores conseguimos …”, “temos que fazer um esforço nacional”. E enquanto nos autoconvencemos que também “temos parte no caixote” os bancos continuam a financiar-se a 1% no BCE e a vender o dinheiro a juros de agiotas. Os grandes acionistas do BPN já partilharam o encaixe que o estado, todos nós solidários e em acto de contrição pela culpa, lhes propiciou de 8 000 Milhões de euros. Os tubarões da saúde privada, as seguradoras, as misericórdias, etc., já garantiram o desmantelamento do Serviço Nacional de Saúde através dos canais de transferência do dinheiro dos nossos impostos para as clínicas, e hospitais privados que dominam. E assim o Estado vai-se retirando das nossas vidas, isto é, vai-se esfumando a tutela do interesse público. A justiça social, eixo fundamental da constituição, pautava o papel de um estado que deveria tender a reequilibrar relações sociais desiguais. Hoje o estado vai encurtando o seu alcance no plano dessa acção discricionária positiva ao serviço dos interesses dos grupos sociais em situação mais desfavorecida e, pelo contrário, vai exercendo, cada vez mais, um papel de subserviência activa ao serviço dos interesses dos banqueiros, da alta finança e dos grandes grupos económicos.
Este estilhaçar do serviço público tem uma forte incidência aqui em Évora, não só pela ausência crescente dos meios financeiros e logísticos dos serviços centrais do estado no suporte a actividades que decorrem de obrigações constitucionais, nomeadamente no que diz respeito à educação não formal e à cultura, como pela ausência, quase total, dos apoios municipais a essas mesmas actividades e agentes.
O debate a que assisti não deixou de incidir sobre aquilo que não existe e devia existir, aquilo que não acontece e deveria acontecer. O problema do espaço, do custo do espaço e da falta de espaços para actividades culturais numa cidade com tantos espaços fechados, a dificuldade de criar e interessar públicos, a dificuldade de comunicar e de promover o objecto artístico. Tudo isso, aliado à necessidade de gerar meios de suporte e financiamento à criação, constituem hoje os problemas, pelo menos destes, jovens criadores. Impressionou-me esta quase assumpção da culpa/responsabilidade por uma situação de clara regressão no que diz respeito aos apoios municipais às actividades dos agentes culturais. O esforço que estes agentes culturais hoje fazem para nos propiciarem o confronto com objectos artísticos é injusto porque decorre de um brutal desequilíbrio na repartição de bens e de uma total perversão do sentido da defesa do interesse público. Provavelmente o dinheiro que foi enterrado na Praça de Touros privada poderia suportar muitas décadas de apoio público à cultura.
Surpreendeu-me muito não encontrar este espaço cheio de jovens músicos, performers, actores, dançarinos, marionetistas, programadores e produtores de eventos culturais. Aqui falou-se, ainda que timidamente, de política talvez fosse por isso que os jovens criadores não apareceram. É que, afinal de contas, a política é para os políticos que na sua lógica discursiva cortam a realidade em fatias finas remetendo as nossas preocupações para pequenas partes da realidade, ficando assim bem mais à vontade para exercerem de forma cada vez mais totalitária o seu poder.
Fala-se muito da relação, ou da negação de relação, entre política e cultura. Este espaço de debate, claramente fora de tutelas partidárias, torna muita clara a relação entre a política, entendida como participação cidadã, e a cultura, a arte e … tudo o resto que nos distingue dos outros viventes!
Este debate foi atravessado por um sentimento que começa a ganhar proporções dramáticas nas nossas vidas, o sentimento da culpa. Um dos elementos ideológicos estruturante da crise decorre da reprodução da culpa, ou da culpa partilhada: “estamos assim porque vivemos acima das nossas possibilidades”, “se formos mais empreendedores conseguimos …”, “temos que fazer um esforço nacional”. E enquanto nos autoconvencemos que também “temos parte no caixote” os bancos continuam a financiar-se a 1% no BCE e a vender o dinheiro a juros de agiotas. Os grandes acionistas do BPN já partilharam o encaixe que o estado, todos nós solidários e em acto de contrição pela culpa, lhes propiciou de 8 000 Milhões de euros. Os tubarões da saúde privada, as seguradoras, as misericórdias, etc., já garantiram o desmantelamento do Serviço Nacional de Saúde através dos canais de transferência do dinheiro dos nossos impostos para as clínicas, e hospitais privados que dominam. E assim o Estado vai-se retirando das nossas vidas, isto é, vai-se esfumando a tutela do interesse público. A justiça social, eixo fundamental da constituição, pautava o papel de um estado que deveria tender a reequilibrar relações sociais desiguais. Hoje o estado vai encurtando o seu alcance no plano dessa acção discricionária positiva ao serviço dos interesses dos grupos sociais em situação mais desfavorecida e, pelo contrário, vai exercendo, cada vez mais, um papel de subserviência activa ao serviço dos interesses dos banqueiros, da alta finança e dos grandes grupos económicos.
Este estilhaçar do serviço público tem uma forte incidência aqui em Évora, não só pela ausência crescente dos meios financeiros e logísticos dos serviços centrais do estado no suporte a actividades que decorrem de obrigações constitucionais, nomeadamente no que diz respeito à educação não formal e à cultura, como pela ausência, quase total, dos apoios municipais a essas mesmas actividades e agentes.
O debate a que assisti não deixou de incidir sobre aquilo que não existe e devia existir, aquilo que não acontece e deveria acontecer. O problema do espaço, do custo do espaço e da falta de espaços para actividades culturais numa cidade com tantos espaços fechados, a dificuldade de criar e interessar públicos, a dificuldade de comunicar e de promover o objecto artístico. Tudo isso, aliado à necessidade de gerar meios de suporte e financiamento à criação, constituem hoje os problemas, pelo menos destes, jovens criadores. Impressionou-me esta quase assumpção da culpa/responsabilidade por uma situação de clara regressão no que diz respeito aos apoios municipais às actividades dos agentes culturais. O esforço que estes agentes culturais hoje fazem para nos propiciarem o confronto com objectos artísticos é injusto porque decorre de um brutal desequilíbrio na repartição de bens e de uma total perversão do sentido da defesa do interesse público. Provavelmente o dinheiro que foi enterrado na Praça de Touros privada poderia suportar muitas décadas de apoio público à cultura.
Surpreendeu-me muito não encontrar este espaço cheio de jovens músicos, performers, actores, dançarinos, marionetistas, programadores e produtores de eventos culturais. Aqui falou-se, ainda que timidamente, de política talvez fosse por isso que os jovens criadores não apareceram. É que, afinal de contas, a política é para os políticos que na sua lógica discursiva cortam a realidade em fatias finas remetendo as nossas preocupações para pequenas partes da realidade, ficando assim bem mais à vontade para exercerem de forma cada vez mais totalitária o seu poder.
Luís Garcia, 2 de Abril, no fb
2 comentários:
a culpa?
ainda que tenha saído um pouco mais cedo devo dizer que não ouvi ou senti sentimentos de culpa da parte dos que ouvi e nas minhas próprias palavras.
Mas claro que não tendo podido ficar até ao final, não posso falar do que se passou a seguir. Senti sim revolta e vontade de encontrar alternativas, assim como persistência em continuar a lutar para criar e produzir arte.
Concordo contigo o sentimento judaico-cristão é uma prisão, daí a ansiedade permanente, constante auto-crítica e claro, excessiva hetero tb por acréscimo. No entanto, no meu caso, critico sim a falta de apoios e de investimento das instituições públicas e referi-o. Ainda falei nos edifícios devolutos nomeadamente o Eborim que poderiam e deveriam ser revitalizados com o envolvimento dos agentes e o investimento da câmara. E claro, na falta de criatividade e de interesse das instituições públicas, que caso quisessem ter algum trabalho e uma efectiva política/programação cultural, poderiam de forma relativamente facil dinamizar e revitalizar o nosso centro histórico.
(Anarita Rodrigues no fb)
Há um sentimento generalizado de uma espécie de culpa partilhada que tem raizes profundas no "pecado original" elemento estruturante da civilização judaico-cristã. Em tempo de crise esse sentimento é mais forte, é mais estimulado. Esteve tão presente ali como está em todo o lado. Eu também senti isso que afirmas: revolta e vontade de encontrar alternativas e, como o Daniel Catarino afirmou, as dificuldades, as hostilidades, os antagonismos são desafios de luta que podem estimular a criatividade, mas há limites. Essa grande "vontade de encontrar alternativas" remete para vocês todo o ónus da coisa e, portanto, a culpa de eventualmente não serem suficientemente lutadores, perspicazes, capazes de se unirem ou distanciarem para encontrarem essas alternativas. Quem tem que encontrar alternativas para apoiar os agentes culturais, por imperativo constitucional, é o estado e, na dimensão local, são as autarquias. Os 8 000 Milhões de euros injectados nos bolsos dos grandes acionistas do BPN suportavam largas décadas de apoio à cultura com um acrescimo de forma a que esse valor anual passasse a constituir 1% do PIB.
(Luís Garcia no fb)
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